Chamamento da Realidade

As questões mais sensíveis e que se relacionam, literalmente, com a vida humana têm sempre a imposição de uma discussão complicada, séria e prolongada; um debate de opiniões insurgidas através das mais diversas questões intelectuais ou de crenças conservadoras. Esta minha opinião surge no contexto da aprovação da eutanásia, que foi um tema patenteado com um alto padrão de sensibilidade, numa sociedade por si só cada vez mais sensível, refém do politicamente correcto e das ofensas fáceis. Se o humor – aquele instrumento precioso que pretende fazer-nos rir – é capaz de causar distúrbios nas grandes massas, muito mais se esperava de um tema como a eutanásia: e muito mais teve de ser interpretado como a discussão do mesmo e não com a distribuição de panfletos que algumas paróquias da igreja católica fizeram, acudindo ao voto no “NÃO”, dada a possibilidade para um referendo, ou com um discurso intimidatório das mesmas que pretende ludibriar a percepção das pessoas idosas através do medo, pois supostamente se elas forem ao hospital, serão eutanasiadas.

Deixando um pouco de parte esta demagogia fundamentalista – lavagem cerebral dos cordeiros –, certamente, um dos pontos mais fulcrais da discussão encontra-se em torno da ética, sendo que esta tem uma posição relativa e derivativa da individualidade; por isso mesmo os profissionais de saúde podem recorrer à objecção de consciência. Chegando à individualidade, chega-se a outro ponto fundamental. Tal como esta opinião, expressa de livre vontade e a qual tenho a permissão democrática de a revelar publicamente, se assim escolher fazê-lo, acho pertinente e importante realizar quaisquer escolhas individuais, que se relacionem com a minha vida e quais as opções que eu pretendo para ela. De encontro ao que os projectos de lei defendem, enquanto a minha capacidade física e a minha lucidez permitirem, é importante possuirmos a abrangência total na autonomia de escolha individual, ainda que esta possa ser radical e que o sofrimento nos leve a pretender cessar com a nossa própria vida.

A proximidade entre a vida e a morte é uma proximidade entre aquilo que se tem e que se sabe minimamente o que é, e, entre o desconhecido. É este limiar da questão que a torna sensível, é um sustento na corda bamba, que implica uma discussão extensa da eutanásia. É bela a compaixão humanista pura, valoriza a vida humana e enaltece o valor da mesma. Por isso há momentos, em que a liberdade de escolha individual deve exponenciar-se e não permitir que terceiros impliquem e condicionem essa liberdade, que é parte tão valiosa nas nossas vidas. A minha liberdade deve manter-se minha e não ser condicionada pela vontade dos outros, caso assim seja, deixarei eu de ser livre e de optar pela minha hipotética continuidade no sofrimento de uma doença incurável ou pela morte. A eutanásia é essa liberdade, é algo individual e que nunca poderá ser uma decisão tomada por terceiros.

Escusada foi a mistura de temáticas, criadoras de areias movediças nas quais, por vezes, podemos cair e tornar difícil a locomoção racional. Os cuidados paliativos não são antagónicos da eutanásia e não é a segunda que condicionará a presença e evolução dos primeiros nos doentes que deles necessitarem. Apesar de até ter havido quem aclamasse à memória de uma pastorinha de Fátima, a liberdade dominou e a questão seguiu um bom rumo, tendo sido aprovada a autonomia individual de cada um.  

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