Se Nevasse no Deserto

Eis a época do “ninguém leva a mal”. Uma época interessante, em que as criancinhas podem ser aquilo que querem. Não é que os adultos também não possam, mas o significado é diferente. Pelas crianças, todos os dias seriam carnaval, e, mesmo não sendo, na vontade delas quereriam que fossem; mas não se pode explorar vivamente a fantasia, não se pode ser um vampiro ou super-herói, quando se tem teste de matemática. Nos tempos em que há teste de matemática, os dias são normais e nos dias normais a sociedade é incansável em julgamentos mesquinhos e, praticamente, tudo pode ser levado a mal, ao contrário do que se diz na época em voga.

O receio de ser alvo do julgamento de terceiros é como uma prisão que não se vê e que nos acompanha a cada passo: um prisma escuro onde não penetra a luz; as cores não surgem tal como nada nos ilumina, por toda a insuficiência que consiste na luminosidade. É o medo: por os outros verem, os outros falarem, os outros inventarem regras que devemos seguir para não nos sentirmos excluídos daquilo a que chamam – com tanta veemência – de normalidade.

É como se o espaço fosse distinto, para os outros e para os que cumprem pré-requisitos sociais, que nem sequer são estabelecidos através do bom senso, mas da vontade em controlar opiniões e de apenas se ouvir ou ver aquilo que agrada a alguns: inflexíveis e incapazes de conviver com a discordância das suas ideologias; assemelhando-se a uma repartição desigual de privilégios. Encara-se fixamente e com alguma atenção esta reflexão que deriva da época do carnaval e eis que se espelha o mundo: num espelho onde todos se podem ver a eles mesmos e poucos encontram algo mais do que um ridículo complexo semelhante ao de Narciso, que juntamente, os eleva a um patamar imaginário de uma intocabilidade falsa e perigosa.

Não são os ouvidos moucos do dia que passa que fazem os jovens acordar durante a noite. São aqueles que ouvem, destemidos, de peito aberto: tal e qual a mente. Não há mal acordar durante a noite, principalmente, por nem todos sermos sonâmbulos. Libertos estarão certamente aqueles que na companhia do pensamento procuram respostas mais amplas: os adultos podem ser o que querem, apesar de não se saber realmente quando e de nem eles saberem o quê. Até os alienígenas podem querer ser outra coisa – esta é uma referência peculiar de interpretação do Donnie Darko –: se fossemos de outro planeta poderíamos muito bem, querer ser um coelho que anunciava o fim do mundo com precisão ao segundo; ninguém levaria a mal, mesmo que o mundo acabasse realmente.

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