CHAMAMENTO DA REALIDADE

Não é novidade que muitos não queiram, não tenham interesse ou mesmo capacidade para dissecar certos objectivos das mensagens das mais variadas formas de arte ou movimentos da corrente social. É uma vivência fútil na literalidade e numa reduzida ambição, que não almeja uma visão mais abrangente, para além do impacto inicial de uma interpretação redutora e triste que fica muito aquém da profundidade e propósito da criação de qualquer coisa. É verdade que podemos não concordar com algo, mas fazê-lo antes de o tentar perceber é uma demonstração de irracionalidade e que leva à descredibilização infundamentada, muitas vezes de iniciativas ou mensagens importantes e merecedoras de atenção.

Podemos afirmar que vivemos na era da literalidade, onde quase todos interpretam literalmente as coisas por clara falta de raciocínio e de disponibilidade para o mesmo. É o abandono dos poetas, cujos versos não nos dirão tanto quanto podem, se os lermos dessa forma e não procurarmos pela verdadeira intenção da mensagem, algures nas profundezas que aquelas palavras são capazes de revelar no interior de quem as lê; não somente lendo mas pensando naquilo que se lê. É um caso labiríntico, mas de fácil resolução. Não é possível escapar de uma mente pequena, se não nos disponibilizarmos a esmiuçar as capacidades racionais de que dispomos. Só dessa forma um livro não será apenas um livro, um filme não será apenas um filme, uma música não será apenas uma música e uma pintura não será apenas uma pintura – como um pintar de lábios não é apenas um pintar de lábios. Trata-se de ver para além da mediocridade, por forma a entender que há muito mais que umas simples palavras, imagens em movimento ou pinceladas numa tela.  

Não é difícil notar que se procuram conteúdos de pouca abrangência intelectual, leves e voltados para um público-alvo que se recusa a disponibilizar para pensar acerca daquilo que ouve, lê ou vê. Isto vai para além das matérias das redes sociais e das notícias verdadeiras e falsas. Isto é um retrato dos consumos da maioria, cujas escolhas recaiem essencialmente no vácuo – na falta de conteúdo – que se vende como algo extremamente bom. Não é por acaso que o que implica mais análise para ser percebido, não tenha tanto sucesso no mercado. A sociedade quer a comida feita, mas não quer cozinhar; e por isso, contenta-se com pouco e com algo que nem necessita de qualidade. (Eis uma frase cujo sentido não deve ser interpretado literalmente, porque neste caso a comida e afins, são apenas uma analogia).

Talvez isto venha a parecer arrogante, mas a intenção não é essa. Não quero elevar o meu ego a um patamar onde pareça melhor que os outros no que quer que seja. É uma crítica frívola, nascida dos meus sentimentos inquietos provocados pela análise que faço ao que me rodeia, através da quietude das minhas observações. Acho relevante espicaçar quem nos é próximo para, tal como eu, pense e critique aquilo que cada um ache conveniente, utilizando argumentos válidos e ponderados. Todos têm direito a defender a sua opinião, embora haja muita inflexibilidade para com opiniões diferentes.

O mais perturbador acaba por ser a ignorância que resulta dos comportamentos mencionados anteriormente. Aquela ignorância que se fascina com o papaguear de quem se tenta demover das suas ligações à extrema-direita e se faz passar por algo que não é, capaz de iludir os incautos através de discursos populistas, como se os seus púlpitos fossem a esplanada de uma rua qualquer, onde por entre os perdigotos de quem fala rudemente, vai-se propagandeando o ódio, o racismo, o xenofobismo e a descriminação. Tenta expor-se como alguém fora do sistema e talvez o seja. Porque felizmente e apesar de todas as falhas e imperfeições, o nosso sistema é democrático e não é a favor da privatização da educação nem se alia às querenças de acabar com o Serviço Nacional de Saúde.

Apesar das dificuldades e da revolta que se possa sentir, devemos manter o mínimo de discernimento e consciencializarmo-nos de que os extremos não são solução. Embora não seja tão simples como escrever o que vou escrever: a solução está no pensamento; na utilização impetuosa e crítica do mesmo, para que estejamos dispostos a questionar tudo ao invés de aceitar inquestionavelmente aquilo que parece algo que na verdade não o é.    

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