TEMPO DE HISTÓRIAS

É certo e sabido que os papagaios são seres capazes de voar; apesar de essa dádiva da natureza não os possibilitar de chegarem à lua. De facto, o ser humano foi a única espécie da Terra capaz de inventar – através da ciência e engenharia – uma forma de chegar ao satélite natural do planeta que habitamos. Também fomos capazes de colocar outros satélites em órbita e não por acharmos que a lua se sentiria sozinha. Ao contrário do que possa parecer, este texto não incidirá sobre a lua, nem sobre as bases que os nazis colocaram no lado negro desta. Teorias da conspiração à parte; pretendo falar acerca da capacidade cognitiva do ser humano, capaz de grandes feitos e ao mesmo tempo capaz de fazer com que um papagaio pareça um génio.

Não pretendendo dar demasiados exemplos da estupidez apregoada pela iluminação de algumas criaturas, farei apenas uma reflexão curta e directa. Poderá ser possível questionar a razão para não estudar com mais afinco e profundidade a idiotice, sendo que talvez esta não passe de algo mal interpretado e tenha, quiçá, um lado genial e merecedor dos mesmos méritos de quem detém as conquistas de grandes feitos. Ora, esta afirmação não será suportada pelo bom senso da maioria, no entanto, quem concordar e defender a mesma, provavelmente, deve a si próprio uma análise do estado do seu raciocínio; até porque isto se assemelharia a colocar no mesmo patamar o Leandro Casimiro e o Albert Einstein: só porque ambos defenderam e elaboraram as suas próprias teorias. O que deve prevalecer é o conteúdo das mesmas, visto que a Teoria da Relatividade é muito diferente da teoria que afirma que na verdade, a Terra é plana: porque se colocou uma vaca em cima de uns patins e a mesma foi empurrada por uma avenida abaixo e em oito anos ainda não regressou ao local de onde a empurraram, algo que deveria suceder se realmente o planeta fosse redondo.

Enquanto essa vaca não completa a volta ao mundo em patins, regressemos aos papagaios, ou mais precisamente a um determinado papagaio. Este bicho tanto é capaz de proferir palavras num português perfeito, como grita desalmadamente ao ponto de fazer parecer que não existe necessidade de sirenes de bombeiros. Certo dia, criou-se um alvoroço na vizinhança, porque, aparentemente, este papagaio enunciava demasiados insultos – aqui cria-se um contraste enorme entre achar piada ou ficar triste perante a indignação dos populares contra um papagaio. O incitador da revolta foi um Óscar Frade, ex-sargento dos comandos. Uma pessoa de respeito e que o exigia a cada passo que dava, sendo um intolerante radical até para com os insultos de um animal que não sabe o que diz.

Demorou pouco para que mais de uma dúzia de pessoas se manifestassem defronte da casa do dono do papagaio; enquanto este cantava uma música qualquer da carochinha, contrariando um pouco, os ânimos exaltados dos protestantes. No seio do reboliço alguns pediam a decapitação do pássaro, outros não sabiam sequer porque estavam a protestar, mas sentiam-se indignados à mesma. Óscar Frade usava a sua antiga farda dos comandos e enquanto numa das mãos tinha um megafone, na outra segurava um pedaço de cartão que dizia “RESPEITO”. Após algumas horas da manifestação, apareceu no local, um grupo de activistas pelos direitos dos animais, exigindo eles próprios respeito pelo animal. Se tudo isto se iniciou pelos insultos do papagaio, era necessário agora um terceiro protesto, porque todos se insultavam uns aos outros e inclusive, insultavam os seus familiares que nem lá estavam e alguns deles até já tinham morrido.                

O papagaio manteve-se sereno, a cantarolar e a assobiar. É óbvio que ele continuará sem capacidades de estudar o universo ou descobrir a cura para uma doença, mas aqueles que desencadearam a confusão defronte do local onde habita este animal, também não o farão. É através desta pequena história – dramática o quanto baste –, que me deparo com a similaridade entre papagaios e humanos. Ambos são capazes de falar, embora muitas vezes não saibam o que estão a dizer nem qual o significado das palavras. A maior diferença é que os insultos dos papagaios, quando ocorrem, não são intencionais. Creio, portanto, que não há necessidade de temer os papagaios, mas devemos ser cautelosos para com aquelas pessoas que papagueiam absurdos e estão rodeadas de seguidores.  

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