Se Nevasse no Deserto

Nunca é demais falarmos das questões sociais importantes, porque foi necessária, durante toda a história, uma luta constante pela igualdade. Milénios de existência já viram muitos activistas: guerreiros, soldados, políticos, cientistas e artistas que lutavam pela libertação do seu povo, por uma causa em que acreditavam e pelo progresso. Passaram-se muitas páginas de livros e nunca se vivenciou um presente onde o activismo fosse desnecessário. Que o digam os irrequietos filósofos da Grécia Antiga; ou a primeira feminista da história em Alexandria. Ela que foi perseguida pelos cristãos de um prematuro e violento cristianismo, que inclusive queimou milhares de livros da simbólica biblioteca dessa cidade histórica. As hipóteses hereges de Giordano Bruno e as descobertas de Copérnico e Galileu. Estas enumerações servem para dizer que grandes feridas podiam ser abertas pela consideração da possibilidade de haverem outros mundos semelhantes ao nosso e pelo facto de a Terra girar à volta do Sol. Era um atrevimento perspetivar cientificamente através da lógica e dos factos contraditórios ao paradigma de uma fé historicamente muito sensível. Os pensamentos revolucionários do iluminismo, a luta contra a escravidão, um século XX absolutamente negro e a história a continuar destemida e indesmentível.

Todas as atitudes retratadas na inquietude diferem do resultado das cinzas de algo que outrora o fogo queimou. Obviamente, tratam-se de chamas diferentes, daquelas criadas pela inquisição que queimou inocentes e discriminava os gatos pela bruxaria ser, aparentemente, algo real e assolador da sociedade da altura. Também são dispensáveis outras fogueiras. Não resulta: tentar queimar as frustrações, onde as desilusões individuais de alguém o impelem a destruir os seus sonhos e ambições. Há dias maus, passagens negras e também há sorte. No desespero, certamente, não residem as melhores decisões. A humanidade sempre revelou comportamentos impetuosos, por vezes até se assemelham a medidas drásticas que tentamos, sabe-se lá porquê, impor a nós próprios. É por isso que importa olhar para trás, como se ao termos noção do que percorremos, estarmos mais perto de seguir pela direcção mais acertada.

Muitas vezes o problema está no oposto ao activismo, no rancor de um conservadorismo preso a uma qualquer ideologia afogada no que de pior o ser humano pode ter. O activismo deve ser sempre uma busca pelo bem, pela evolução positiva, pela igualdade e justiça. É necessária a nossa atenção para as promessas vácuas e para os discursos inflamados que revindicam que a solução está atrás de um véu de ódio e discriminação. Não é no retrocesso, na ausência de respeito e numa falsa superioridade racial ou patriótica que residem respostas pertinentes para o bem-estar da humanidade e o bom funcionamento da sociedade. As únicas respostas que isso nos transmite são todos os anos de conflito entre povos, civilizações, tribos, países e religiões. Em milhares de anos, o mundo nunca foi capaz de reconhecer totalmente a paz. É por isso necessário o questionamento, através de vozes que vençam o silêncio e o conformismo maligno que compactuam com o veneno que teima em percorrer o mundo e que por vezes passa despercebido. É talvez, um dever armarmo-nos com informação e munir-nos de razão. Insistir que o passado não seja esquecido e que os discursos de ódio não se repitam. É pela liberdade mais preciosa que temos, a da expressão, que temos de travar esta batalha.

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