CLARIFICAÇÃO DE NADA EM CONCRETO

Tivesse o pensamento de pagar imposto e eu seria mais uma pessoa no limiar da pobreza. O meu (pensamento) é inquieto como a alma – diriam os poetas –, embora eu desconheça a inquietude da mesma. Soa-me aos ouvidos uma música húngara. A qualidade inegável de uma peça artística, oriunda de um país onde quase é proibido ser homossexual. Há crimes inventados nas profundezas da incompreensão, do conservadorismo; retrocesso ou discriminação. Obrigam-nos a cumprir a lei e cumpri-la custa dinheiro. Quem não tem posses para cumprir a lei, tem de pagar multa.

Atiro com o meu telemóvel ao ar. Era suposto apanhá-lo, mas este cai e parte o vidro do ecrã. Foi um acto estúpido, talvez comparável, ou não, aos procedimentos de alguns chefes de estado que chegaram ao poder democraticamente para a tentarem destruir. A dor maior é quando se descobre que podemos gastar o salário na estupidez. A aliada da ostentação no dinheiro desperdiçado é a estupidez. Tudo tem o valor que lhe atribuímos. Não devemos querer chegar demasiado perto do cimo do vulcão: corremos o risco de cair lá dentro.

Erguem-se monumentos estranhos. O rosto de criminosos gravados em pedras, como se a escultura os inocentasse. A justiça é cega; às vezes perde-se, caminha por locais irregulares e perde a noção. Talvez o sionismo se esconda por detrás das bombas que dizimam inocentes na Palestina: pais que morrem sem se lembrarem quais foram as últimas palavras que os seus filhos – ainda crianças – lhes disseram. O medo das palavras existe, porque palavras metem medo. Esses conjuntos de formas; letras que são desenhos com um significado revelado pelo abecedário.

Algumas pessoas tentam falar com Deus. Entidade misteriosa de outra dimensão que, provavelmente, contará com a melhor audição do universo. Os rios trespassam pedras, no seu caminho irregular que guarda um destino. Deus ainda não respondeu. Uma senhora de idade coloca umas velas em frente a uma figura em porcelana. O vento vira as páginas de um livro abandonado no meio do chão. A natureza também lê. Em pleno dia, o céu fica escuro e começa a chover. Talvez o livro falasse dos actos humanos, talvez a natureza chore. Chuva como lágrimas, nuvens como um sentimento ferido, trovões como gritos de raiva. Bipolaridade dos elementos: ou um clima enlouquecido. O capitalismo insiste que o invisível não endoidece ninguém.

Desmerecedores da erudição: como se a cultura fosse um exército; guerreia-se contra ela. Está descriminada e tem uma cova aberta. Teatros para teias de aranha. Seres de oito patas que sentem viver uma distopia. Um papagaio grita na varanda de um prédio. Um cão responde-lhe ao longe. Os comboios têm muitos lugares vazios, independentemente da velocidade que andam. O chão sustenta os pés. Caminhamos e dormimos, à espera que amanhã chegue, à espera de acordar. A maior mentira do século nasceu quando se disse que tudo ia ficar bem. O mundo não está engrenado para isso.                

Uma criança sorri enquanto corre para uma bola. Pequenos passos da alegria. Encontra-se a chave perdida, abre-se o portão do País das Maravilhas. Uma revolução destituiu a Rainha de Copas, num país que já não é só para a Alice. Esse país da inspiração, para além do ar que respiramos; sem medo, sem máquinas, sem máscaras.

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