Chamamento da Realidade

Algumas conjecturas surgem para inquietar, como as gotas de chuva no Verão que abalam o conformismo dos amantes dos dias soalheiros. Que somos nós senão uns seres incompletos e inacabados, repletos de insatisfação e ganância. Também não somos lineares, dedutíveis ou calculáveis como uma equação. Não somos como o teorema de Pitágoras, não nos conseguem somar os catetos para verificar a hipotenusa. De Pitágoras até hoje passou muito tempo; o suficiente para se lerem textos em aparelhos que, quase de certeza, nenhuma mente da Grécia antiga imaginaria.

Não sou excepcional e por isso, também eu sou portador de uma mente que projecta uma variedade de pensamentos inquietantes. Isto está muito para além de eu ver moinhos em vales verdes, separados por um riacho que desce vorazmente por uma montanha parcialmente oculta, por um ténue nevoeiro que aviva a cor da vegetação. O verde contrasta bem com o cinzento, com a humidade das nuvens baixas, como se estivéssemos perante tímidas almas gémeas produzidas inteiramente pela natureza. Aquele seu toque que se assemelha a magia e provoca uma atracção, efémera e sincera, dos olhos humanos para as suas obras, mesmo que elas, como os moinhos dos vales, sejam apenas produtos imaginários.

Também as obras da natureza podem ser imaginadas antes de existirem, ainda que possam nunca existir. Tudo isto acontece anteriormente a algum louco afirmar que toda a natureza não passa da imaginação de alguém que não nós mesmos: estivéssemos nós a viver na mente uns dos outros e não passássemos de produtos do pensamento de alguém. Entretanto surge a dor, que numa agonia provocadora nos grita aos ouvidos a certeza de que a realidade é factual, tal como a nossa existência. O preço para a certeza de estarmos vivos é a dor, como se esta fosse o sinónimo da vida: como os beliscões que servem para perceber se estamos a vivenciar algo ou a sonhar que o estamos a fazer.

Voltando ao ínicio do texto, regresso também às inquietudes. Certamente, cada um terá as suas. As minhas inspiraram-me a escrever este texto e remetem-se às cores e à imaginação. Há algo de paradoxal entre as cores e a imaginação. Isto porque o espectro das cores colide com a possibilidade de infinidade da imaginação. Torna-se assim claro, que não somos capazes de imaginar uma cor que não existe e eis que assim, surge diante de nós, um limite para a imaginação. A mais bela capacidade humana, capaz de criar unicórnios com seis patas e cinquenta olhos, capaz de fazer o musgo crescer na lua, é ao mesmo tempo, uma capacidade que se afasta do infinito das probabilidades. A imaginação afinal tem limites, como um carro que circula numa estrada com limite de velocidade. O pensamento como uma máquina; algo mecânico suportado por rodas que circula apenas até onde os limites permitem. 

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