Tempo de Histórias

Um vagabundo escreveu na parede: “A escuridão dir-te-á o que nunca verás.”. Um humano deambulante, com a solidão perpétua no encalce da sua sombra. Uma perseguição voraz que a pouca luz revela, e que teimosamente persiste a cada passo lento e arrastado dos relógios, numa constante obscuridade. A filosofia destapada, oriunda de uma mente sem tecto, completamente exposta aos elementos. Aqueles que seguem sem rumo, cujos objectivos há muito se perderam, retalham na perfeição o contraste, entre a luz e a escuridão, entre o visível e o invisível.

O mesmo vagabundo escreveu noutra parede: “O silêncio grita-te aos ouvidos.”. Assim continuará ele, imponente e incansável. Não vive ao ritmo dos despertadores, não tem de se levantar cedo no dia seguinte. As agendas são uma ilusão. As ruas afligem-se em resultado da confusão, do movimento frenético, dos olhos curiosos e dos passos apressados de quem tem compromissos. O vagabundo senta-se e aguarda. Aos poucos, a rua empobrece, desertifica-se: acaba por adormecer. Dorme a rua, em mais uma noite incapaz de avivar os sentidos.

O que se vê e ouve no presente remeter-se-á a uma mensagem comprometida no futuro. A concepção não é capaz de reter tudo. Tudo o que houve foi apenas vivido uma vez, tudo o resto pode ser parecido mas nunca será igual. Gigante pode ser o desejo de voltar atrás no tempo mas os ponteiros giram no mesmo rumo. Tudo aquilo que nos ignora segue o seu caminho: o céu escurece, a lua surge e novamente o dia foi diferente. O vagabundo voltou a ver a rua empobrecer, a desertificar-se, mas já não era a mesma de ontem e não será a mesma amanhã.

Outrora, o vagabundo tinha um testamento, tinha bens para deixar a alguém que lhe conviesse. Vaguear pelas ruas é recente. Ele trabalhou e reformou-se. Possuía uma casa e um belo jardim. Todo o tempo livre serviu para se dedicar ao cuidado das plantas. Não conheceu muito mais que a sua zona – o percurso rotineiro entre a casa, o trabalho e as compras essenciais. Nos primeiros tempos de reforma, era impossível pensar em algo diferente do que dedicar-se à jardinagem até ao fim dos seus dias. As suas flores necessitavam de cuidado e atenção, diariamente.

Bastou a morte de uma das flores: grande tragédia para tão pequeno coração. Perante ele, revelou-se apenas uma prisão florida, bela e capaz de lhe capturar o resto do seu tempo. Virou as costas e correu, desenfreadamente, sem pensar. Para trás, ficaram todos os espinhos venenosos que lhe interrompiam o discernimento, que o impediam de querer ver o mundo. A vida foi por ele finalmente descoberta, na solidão de quem vagueia por cidades esquecidas no seio da noite, por quem se esqueceu de onde veio. Ao contrário daqueles que provocavam o movimento da cidade durante o dia, ele não queria voltar atrás, não queria reformular as suas escolhas.                

O vagabundo sabe que o ar gélido nocturno continuará a propagar a sua voz enquanto as paredes suportarão as suas mensagens. O pensamento é livre e persiste, através do som, da escrita e da sensibilidade.

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