Chamamento da Realidade

O caos convoca a humanidade para se sentar à mesa. Não quer negociar, porque o caos é inegociável – contrariando por ventura, os negócios que a humanidade estabelece no caos, que geram lucros a uns: por entre a desgraça e por entre os preços pagos com vidas inocentes. Sem discutir a génese da definição de inocência, facilmente, nos apercebemos que tem uma importância reduzida. Quem estabelece o caos por motivos puramente egocêntricos, desvaloriza completamente os inocentes.

É aqui que chegamos, aqui que nos encontramos. Se o século XX foi negro, para onde nos leva este século ainda recente? Um lugar na história que já veio recheado com guerra, crise, pandemia e mais guerra. Vê-se a verdade quando se olha para trás, nos momentos em que a cabeça se reergue e a baforada da realidade nos atinge com uma força tremenda no rosto; e mesmo assim, é como se nada fosse, e o ecrã luminoso que nos acompanha capta novamente a nossa atenção.

Num mar, perdidos, pelos caminhos marítimos já descobertos. Parece não haver marinheiros que nos levem a bom porto. O interregno onde nos encontramos chega a ser tão grande que, nesta questão, talvez até os piratas são de maior confiança que os navegadores obedientes.

Em breve, começar-se-ão a vender as coordenadas para o fim do mundo. A localização precisa e exacta daquilo que não é um local físico. Coordenadas temporárias: localização no tempo. Daqui a três dias; daqui a um ano, dois meses e dezoito dias. Daqui a qualquer resultado de um último cálculo que a humanidade parece querer fazer.

Os extravagantes turistas espaciais sentam-se na primeira fila para vislumbrar um retrato da Terra. Nele, vislumbra-se um planeta azulado que preenche o olho humano, cujas atenções, facilmente se dirigem para aquilo que se lhes apresenta como belo. Se por cá, muito de valor haveria para ver, torna-se desnecessário contrariar tal óbvia objectivação ao nosso mundo, quando visto de fora.

Do exterior, tornam-se imperceptíveis todos os males perpetrados pela máquina de destruição que controla o mundo. Numa plenitude onde impera o silêncio e a distância, as engrenagens suicidas da humanidade poderão apenas garantir uma revelação clara: talvez todos deveríamos ir ao espaço e ver o nosso mundo, a nossa casa ao longe. Tornar-se-ia óbvio que ela não explodirá. O nosso fim reside na implosão.

Somos o veneno que se entranhou nas veias da natureza. Somos os indignos gananciosos que tiranizamos o que não nos pertence. Que seja dolorosa esta introspecção, esta atribuição de culpa própria a todos nós. Devemos aceitá-la e procurar mudar o que estiver ao nosso alcance para não contribuirmos para uma iminente implosão.

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