CHAMAMENTO DA REALIDADE

O aperto das situações nem sempre nos permite obter um discernimento claro da forma como devemos agir. O sentimento repentino que nasce do momento em si – do impacto imediato – é e será sempre mais forte do que a consciência geral; aquela que algumas pessoas só se inteiram quando serenam, no resfriar do pensamento após o calor repentino que impele aos actos imponderados; às palavras irreflectidas; às acções susceptíveis de causar arrependimento.

Quando sentimos algo em demasia, corremos o risco de parecer egoístas – ou mesmo de o ser. Certos pensamentos fazem-nos estar sozinhos, isolados na incompreensão: algo que parece pior do que é, porque talvez seja necessário, às vezes, um isolamento desse género. A solidão, no meio das suas interpretações muito particulares, não significa egoísmo. Onde reside então o egoísmo do sentimento ou dos sentimentos?

Antes de tentar responder à minha própria pergunta, devo esclarecer a mim próprio e aos outros que nada disto é certo e que tudo isto é inevitavelmente questionável. As reflexões podem e devem ser sempre submetidas à possibilidade do falhanço, principalmente, quando abordam assuntos de relevante profundidade. Talvez seja nessa profundidade que eu me perca, por vezes, sozinho. Na escuridão das minhas interpretações e do meu pensamento. São abismos côncavos, de saliências imperfeitas e de uma eterna queda. Tudo isso bem escondido, numa superfície cuja aparência se assemelha à maior das serenidades: o verdadeiro retrato das armadilhas dissimuladas que coloco a mim mesmo, onde se parece evidenciar que o propósito começa a desvanecer: quanto mais se tenta emergir, mais caímos.

Quiçá tudo isto seja mesmo egoísmo. Talvez tudo aquilo que nos faz sentir seja pouco. A condição humana permite-nos ver a dor, mas não nos deixa sentir toda a dor que vemos. Sentimos apenas o que nos acontece, e embora nos possamos sensibilizar com aquilo que testemunhamos, isso não é o suficiente para o sentir. Ninguém sabe o quão para além da imaginação pode estar o sentimento dos outros. Muitas vezes, nós somos apenas bombardeados com as notícias acerca de pessoas que são bombardeadas. O que é que nós perdemos enquanto permanecemos sentados no sofá? As questões levantam-se ao contrário de nós, que muitas vezes continuamos alapados, a aguardar o início da telenovela e a desprezar o sofrimento alheio.

É difícil manter a coerência nesta temática, porque todos temos o mesmo direito a sentir que o nosso sofrimento é imenso, mesmo que este não passe de uma sovinice manhosa e infantil. É nestes casos que é mais inconveniente o ponto de comparação e é quando parece mais difícil reconhecer a sorte. Há quem ainda dance em cima de uma roleta onde se joga a vida e a morte. Há quem chore, quem ria e quem ignore. A verdade é que o infortúnio de uns é a fortuna de outros. A pura composição da sociedade humana: há todo um caminho entre os destinos da miséria e da ostentação e há cada vez uma maior distância entre essas duas condições.

Afinal o que sei eu, para além de debitar dúvidas num teclado e continuar confuso sem perceber realmente o mundo onde vivo; sem que sequer me perceba completamente: a mim, que sou eu mesmo. A fonte para esta dissertação brota demasiado conteúdo, porque o mundo está repleto de imensos indivíduos e todos eles únicos e todos eles anónimos. Jamais alguém se conhecerá totalmente e por isso mesmo estamos condenados a ser para sempre desconhecidos, que um dia deambularam por este mundo sem um destino concreto, onde a maioria do mal que sucede, deriva das escolhas de alguém ou de alguns ou de todos.               

TEMPO DE HISTÓRIAS

Houve dias em que Vladimir Kuzov parecia alguém capaz de se encontrar com as suas próprias divagações; como se estas ganhassem vida ou fossem uma criação do mundo imposta a ele. Num desses dias – cuja data é irrelevante – Vlad. K. encontrou um homem aprisionado no medo da morte. A irracionalidade deste receio, não lhe permitia o vislumbre da liberdade concebida pela causa inevitável de se estar vivo, ou talvez até: de exisitir.

A existência é vã para quem não a aprecia e dolorosa para quem não a deseja. Certamente, o existencialismo em si pode ser complicado e ao mesmo tempo, bastante atractivo. É uma nascente eterna que jorra conteúdos para o pensamento; evitados pelos que futilizam a existência e apreendidos – em demasia – por quem não deseja a existência.

Vladimir Kuzov moderava-se o quanto podia nestas andanças capazes de incendiar o raciocínio daqueles que têm o atrevimento de se questionar acerca da vida e da morte. O mesmo não acontecia com o homenzinho velho de seu nome Ivan. O medo toldava-o e impedia-o de viver com o discernimento desejável para quem quer viver. Ivan tinha comprado vários caixões durante a sua vida, esperava que algum o ajudasse a enfrentar a realidade de que um dia morreria.

O seu plano era estar próximo da morte, para a enfrentar. De facto, a sua condição humana deixava-o, a cada dia que passava, mais próximo da morte. No entanto, não era o tipo de proximidade que ele desejava, porque cada vez sentia mais medo e os caixões que comprou, não o ajudavam a superar esta agonia invocada pelo temor. Estava por demais evidente: os caixões são para confortar os mortos e não os vivos.                

Vladimir Kuzov apercebeu-se do erro de Ivan. Ele deixou-se consumir pelo medo porque o seu pensamento estava mórbido. Nunca se apercebeu do limiar existente entre a vida e a morte e que basta um pequeno passo para o lado, para que em vez de se pensar no fim da nossa existência, possamos pensar em valorizar tudo aquilo que antecede esse fim. Se fosse traduzido em matemática, daria um cálculo simples: entre viver e morrer, devemos dar mais importância à vida, tentando, por entre toda a nossa significância ou irrelevância, contribuir tanto o quanto possível para que a vida de todos seja melhor.

Se Nevasse no Deserto

Nunca é demais falarmos das questões sociais importantes, porque foi necessária, durante toda a história, uma luta constante pela igualdade. Milénios de existência já viram muitos activistas: guerreiros, soldados, políticos, cientistas e artistas que lutavam pela libertação do seu povo, por uma causa em que acreditavam e pelo progresso. Passaram-se muitas páginas de livros e nunca se vivenciou um presente onde o activismo fosse desnecessário. Que o digam os irrequietos filósofos da Grécia Antiga; ou a primeira feminista da história em Alexandria. Ela que foi perseguida pelos cristãos de um prematuro e violento cristianismo, que inclusive queimou milhares de livros da simbólica biblioteca dessa cidade histórica. As hipóteses hereges de Giordano Bruno e as descobertas de Copérnico e Galileu. Estas enumerações servem para dizer que grandes feridas podiam ser abertas pela consideração da possibilidade de haverem outros mundos semelhantes ao nosso e pelo facto de a Terra girar à volta do Sol. Era um atrevimento perspetivar cientificamente através da lógica e dos factos contraditórios ao paradigma de uma fé historicamente muito sensível. Os pensamentos revolucionários do iluminismo, a luta contra a escravidão, um século XX absolutamente negro e a história a continuar destemida e indesmentível.

Todas as atitudes retratadas na inquietude diferem do resultado das cinzas de algo que outrora o fogo queimou. Obviamente, tratam-se de chamas diferentes, daquelas criadas pela inquisição que queimou inocentes e discriminava os gatos pela bruxaria ser, aparentemente, algo real e assolador da sociedade da altura. Também são dispensáveis outras fogueiras. Não resulta: tentar queimar as frustrações, onde as desilusões individuais de alguém o impelem a destruir os seus sonhos e ambições. Há dias maus, passagens negras e também há sorte. No desespero, certamente, não residem as melhores decisões. A humanidade sempre revelou comportamentos impetuosos, por vezes até se assemelham a medidas drásticas que tentamos, sabe-se lá porquê, impor a nós próprios. É por isso que importa olhar para trás, como se ao termos noção do que percorremos, estarmos mais perto de seguir pela direcção mais acertada.

Muitas vezes o problema está no oposto ao activismo, no rancor de um conservadorismo preso a uma qualquer ideologia afogada no que de pior o ser humano pode ter. O activismo deve ser sempre uma busca pelo bem, pela evolução positiva, pela igualdade e justiça. É necessária a nossa atenção para as promessas vácuas e para os discursos inflamados que revindicam que a solução está atrás de um véu de ódio e discriminação. Não é no retrocesso, na ausência de respeito e numa falsa superioridade racial ou patriótica que residem respostas pertinentes para o bem-estar da humanidade e o bom funcionamento da sociedade. As únicas respostas que isso nos transmite são todos os anos de conflito entre povos, civilizações, tribos, países e religiões. Em milhares de anos, o mundo nunca foi capaz de reconhecer totalmente a paz. É por isso necessário o questionamento, através de vozes que vençam o silêncio e o conformismo maligno que compactuam com o veneno que teima em percorrer o mundo e que por vezes passa despercebido. É talvez, um dever armarmo-nos com informação e munir-nos de razão. Insistir que o passado não seja esquecido e que os discursos de ódio não se repitam. É pela liberdade mais preciosa que temos, a da expressão, que temos de travar esta batalha.

CLARIFICAÇÃO DE NADA EM CONCRETO

A humanidade vive como se estivesse à escuta de um meteorito gigantesco que se encaminha na nossa direcção e que exterminará grande parte das espécies do planeta, inclusive a nossa. Se Marte ou Vénus fossem jornalistas de um qualquer jornal do sistema solar e pudessem entrevistar a Terra acerca dos seus sentimentos e da forma como ela iria reagir à extinção da humanidade, provavelmente ela responderia que ia custar levar com um meteorito, mas a longo prazo seria bom, pois teria descanso. Finalmente, os muito milhões de parasitas gananciosos, deixariam de destruir o planeta onde habitam, o qual, erroneamente consideravam deles, quando é certo e deveria ser sabido por todos, que o planeta já cá estava antes e irá permanecer depois de eles desparecerem.

É óbvio que isto não é uma tentativa fútil e frustrante de revelar mais uma data para o fim do mundo. A analogia de estarmos à escuta de um meteorito é melhor que as previsões dos profetas Geraldo Lemos e Chico Xavier; melhor que o Y2K, Nostradamus e que as previsões de teólogos Sunitas. E digo confiantemente que é melhor porque não a defendo como verdadeira e se por acaso acreditasse nela, correria dias seguidos – a imitar o Forrest Gump –, todo nu e a ouvir música. Acho que escolher a roupa que devemos usar no dia do apocalipse, é uma escolha demasiado inquietante e complicada: semelhante à daquele indivíduo que não se conseguia decidir por quais chinelos utilizar para se mover dentro de sua casa – dizia que não haviam chinelos com valor suficiente para merecer o seu estrondoso domicílio – e quando finalmente decidiu, calçou-os e minutos depois escorregou. E assim, enquanto o indivíduo foi parar a uma casa nova que comumente é chamada de caixão, os chinelos permaneceram no casarão.

Espero que estas palavras inspirem os grupos revolucionários a quererem iniciar uma revolução. Essa palavra que às vezes está na ponta da língua e dá a entender que a explosão estás prestes a acontecer e só não se torna num acto porque a cama tem estado quentinha e lá fora está a chover. É consensual – a partir de hoje – entre os grandes mestres da revolução, que não se fazem revoluções à chuva, nem se ensina história aos gatos. Pode parecer estranho, mas os mestres zelam pela alegria das famílias que têm um gato como animal de estimação e pelas velhinhas solitárias que têm até duzentos e vinte gatos a viverem com elas. Esta circunstância é tão simples quanto isto: se os gatos aprendessem história, saberiam da perseguição que a inquisição lhes fez no passado quando os acusavam de cúmplices de bruxaria. Isto poderia provocar nos gatos mais rancorosos, vontade de querer ajustar contas com a humanidade.

Quem sabe se afinal a humanidade não será extinta pelos gatinhos. Os acontecimentos estranhos também têm lugar a acontecer. Principalmente, se os gatos sul-americanos começarem a fazer viagens de mota por diversos países do continente e a juntar outros animais à sua luta que depois se propagará pelo mundo. Pelo menos por enquanto, os animais não têm religião e estamos livres que um canguru vestido com um colete de explosivos se sente ao nosso lado no autocarro, enquanto procuramos num folheto as melhores promoções de chinelos e de edredons, para manter a cama quente enquanto não se podem fazer revoluções.  

TEMPO DE HISTÓRIAS

É certo e sabido que os papagaios são seres capazes de voar; apesar de essa dádiva da natureza não os possibilitar de chegarem à lua. De facto, o ser humano foi a única espécie da Terra capaz de inventar – através da ciência e engenharia – uma forma de chegar ao satélite natural do planeta que habitamos. Também fomos capazes de colocar outros satélites em órbita e não por acharmos que a lua se sentiria sozinha. Ao contrário do que possa parecer, este texto não incidirá sobre a lua, nem sobre as bases que os nazis colocaram no lado negro desta. Teorias da conspiração à parte; pretendo falar acerca da capacidade cognitiva do ser humano, capaz de grandes feitos e ao mesmo tempo capaz de fazer com que um papagaio pareça um génio.

Não pretendendo dar demasiados exemplos da estupidez apregoada pela iluminação de algumas criaturas, farei apenas uma reflexão curta e directa. Poderá ser possível questionar a razão para não estudar com mais afinco e profundidade a idiotice, sendo que talvez esta não passe de algo mal interpretado e tenha, quiçá, um lado genial e merecedor dos mesmos méritos de quem detém as conquistas de grandes feitos. Ora, esta afirmação não será suportada pelo bom senso da maioria, no entanto, quem concordar e defender a mesma, provavelmente, deve a si próprio uma análise do estado do seu raciocínio; até porque isto se assemelharia a colocar no mesmo patamar o Leandro Casimiro e o Albert Einstein: só porque ambos defenderam e elaboraram as suas próprias teorias. O que deve prevalecer é o conteúdo das mesmas, visto que a Teoria da Relatividade é muito diferente da teoria que afirma que na verdade, a Terra é plana: porque se colocou uma vaca em cima de uns patins e a mesma foi empurrada por uma avenida abaixo e em oito anos ainda não regressou ao local de onde a empurraram, algo que deveria suceder se realmente o planeta fosse redondo.

Enquanto essa vaca não completa a volta ao mundo em patins, regressemos aos papagaios, ou mais precisamente a um determinado papagaio. Este bicho tanto é capaz de proferir palavras num português perfeito, como grita desalmadamente ao ponto de fazer parecer que não existe necessidade de sirenes de bombeiros. Certo dia, criou-se um alvoroço na vizinhança, porque, aparentemente, este papagaio enunciava demasiados insultos – aqui cria-se um contraste enorme entre achar piada ou ficar triste perante a indignação dos populares contra um papagaio. O incitador da revolta foi um Óscar Frade, ex-sargento dos comandos. Uma pessoa de respeito e que o exigia a cada passo que dava, sendo um intolerante radical até para com os insultos de um animal que não sabe o que diz.

Demorou pouco para que mais de uma dúzia de pessoas se manifestassem defronte da casa do dono do papagaio; enquanto este cantava uma música qualquer da carochinha, contrariando um pouco, os ânimos exaltados dos protestantes. No seio do reboliço alguns pediam a decapitação do pássaro, outros não sabiam sequer porque estavam a protestar, mas sentiam-se indignados à mesma. Óscar Frade usava a sua antiga farda dos comandos e enquanto numa das mãos tinha um megafone, na outra segurava um pedaço de cartão que dizia “RESPEITO”. Após algumas horas da manifestação, apareceu no local, um grupo de activistas pelos direitos dos animais, exigindo eles próprios respeito pelo animal. Se tudo isto se iniciou pelos insultos do papagaio, era necessário agora um terceiro protesto, porque todos se insultavam uns aos outros e inclusive, insultavam os seus familiares que nem lá estavam e alguns deles até já tinham morrido.                

O papagaio manteve-se sereno, a cantarolar e a assobiar. É óbvio que ele continuará sem capacidades de estudar o universo ou descobrir a cura para uma doença, mas aqueles que desencadearam a confusão defronte do local onde habita este animal, também não o farão. É através desta pequena história – dramática o quanto baste –, que me deparo com a similaridade entre papagaios e humanos. Ambos são capazes de falar, embora muitas vezes não saibam o que estão a dizer nem qual o significado das palavras. A maior diferença é que os insultos dos papagaios, quando ocorrem, não são intencionais. Creio, portanto, que não há necessidade de temer os papagaios, mas devemos ser cautelosos para com aquelas pessoas que papagueiam absurdos e estão rodeadas de seguidores.  

CHAMAMENTO DA REALIDADE

Não é novidade que muitos não queiram, não tenham interesse ou mesmo capacidade para dissecar certos objectivos das mensagens das mais variadas formas de arte ou movimentos da corrente social. É uma vivência fútil na literalidade e numa reduzida ambição, que não almeja uma visão mais abrangente, para além do impacto inicial de uma interpretação redutora e triste que fica muito aquém da profundidade e propósito da criação de qualquer coisa. É verdade que podemos não concordar com algo, mas fazê-lo antes de o tentar perceber é uma demonstração de irracionalidade e que leva à descredibilização infundamentada, muitas vezes de iniciativas ou mensagens importantes e merecedoras de atenção.

Podemos afirmar que vivemos na era da literalidade, onde quase todos interpretam literalmente as coisas por clara falta de raciocínio e de disponibilidade para o mesmo. É o abandono dos poetas, cujos versos não nos dirão tanto quanto podem, se os lermos dessa forma e não procurarmos pela verdadeira intenção da mensagem, algures nas profundezas que aquelas palavras são capazes de revelar no interior de quem as lê; não somente lendo mas pensando naquilo que se lê. É um caso labiríntico, mas de fácil resolução. Não é possível escapar de uma mente pequena, se não nos disponibilizarmos a esmiuçar as capacidades racionais de que dispomos. Só dessa forma um livro não será apenas um livro, um filme não será apenas um filme, uma música não será apenas uma música e uma pintura não será apenas uma pintura – como um pintar de lábios não é apenas um pintar de lábios. Trata-se de ver para além da mediocridade, por forma a entender que há muito mais que umas simples palavras, imagens em movimento ou pinceladas numa tela.  

Não é difícil notar que se procuram conteúdos de pouca abrangência intelectual, leves e voltados para um público-alvo que se recusa a disponibilizar para pensar acerca daquilo que ouve, lê ou vê. Isto vai para além das matérias das redes sociais e das notícias verdadeiras e falsas. Isto é um retrato dos consumos da maioria, cujas escolhas recaiem essencialmente no vácuo – na falta de conteúdo – que se vende como algo extremamente bom. Não é por acaso que o que implica mais análise para ser percebido, não tenha tanto sucesso no mercado. A sociedade quer a comida feita, mas não quer cozinhar; e por isso, contenta-se com pouco e com algo que nem necessita de qualidade. (Eis uma frase cujo sentido não deve ser interpretado literalmente, porque neste caso a comida e afins, são apenas uma analogia).

Talvez isto venha a parecer arrogante, mas a intenção não é essa. Não quero elevar o meu ego a um patamar onde pareça melhor que os outros no que quer que seja. É uma crítica frívola, nascida dos meus sentimentos inquietos provocados pela análise que faço ao que me rodeia, através da quietude das minhas observações. Acho relevante espicaçar quem nos é próximo para, tal como eu, pense e critique aquilo que cada um ache conveniente, utilizando argumentos válidos e ponderados. Todos têm direito a defender a sua opinião, embora haja muita inflexibilidade para com opiniões diferentes.

O mais perturbador acaba por ser a ignorância que resulta dos comportamentos mencionados anteriormente. Aquela ignorância que se fascina com o papaguear de quem se tenta demover das suas ligações à extrema-direita e se faz passar por algo que não é, capaz de iludir os incautos através de discursos populistas, como se os seus púlpitos fossem a esplanada de uma rua qualquer, onde por entre os perdigotos de quem fala rudemente, vai-se propagandeando o ódio, o racismo, o xenofobismo e a descriminação. Tenta expor-se como alguém fora do sistema e talvez o seja. Porque felizmente e apesar de todas as falhas e imperfeições, o nosso sistema é democrático e não é a favor da privatização da educação nem se alia às querenças de acabar com o Serviço Nacional de Saúde.

Apesar das dificuldades e da revolta que se possa sentir, devemos manter o mínimo de discernimento e consciencializarmo-nos de que os extremos não são solução. Embora não seja tão simples como escrever o que vou escrever: a solução está no pensamento; na utilização impetuosa e crítica do mesmo, para que estejamos dispostos a questionar tudo ao invés de aceitar inquestionavelmente aquilo que parece algo que na verdade não o é.    

SE NEVASSE NO DESERTO

O início de 2020 foi tão diferente do momento actual que até provoca a sensação que nunca existiu. É o quão longínquo está o início de um ano anormal para quem sempre teve uma vida confortável, sem grandes tragédias como viver num cenário de guerra ou algo semelhante. Foi a essa distância que se fizeram pronunciar os oráculos do nosso século, ou seja, os astrólogos; videntes; bruxos; cartomantes; tarólogos; médiuns e até, possivelmente, alguns charlatães. Alguns deles obtiveram tempo de antena para fazerem soar os alarmes em relação ao que aconteceria neste ano.

Ora bem, o que aconteceu foi que estas pessoas que até conseguem, às vezes, falar com mortos – somente se o sinal de rede for suficiente e bom – fizeram revelações chocantes, cheias de optimismo; previsões de um ano em grande, excelente para o crescimento da economia, com muitos motivos de alegria que deveriam alimentar a nossa esperança para o que aí vinha, se calhar até melhor do que o ano anterior. O Pai Natal tinha-se esmerado com o presente que nos ia oferecer. Não que as acções da população sejam influenciadas pelo que algum vidente possa dizer em televisão, mas não demorou muito tempo para que surgisse algum arrependimento pela compra de bilhetes para festivais.

Os festivais foram todos cancelados – o que no momento em que escrevo isto é quase tão grave como o SNS estar quase em colapso – porque o ano foi um desastre e aparentemente, deveria ficar comprovado que o alinhamento dos astros no momento do nosso nascimento nem define personalidades, nem nos diz o que quer que seja acerca da nossa vida pessoal, muito menos conseguirá prever um evento que poderá influenciar o mundo inteiro. Não tenho intenção de perseguir as pessoas que ganham a vida neste tipo de profissões, muito pelo contrário: admiro a forma como ganham dinheiro através da magia das previsões, da comunicação com os mortos, da leitura de ossos de galinha, de cartas e de bolas de cristal. E tudo isto sucede enquanto há por aí quem se dê ao descaramento de achar que o Harry Potter é apenas uma história ficcional.

O que eu acabei por entender foi que as previsões dos astrólogos e afins são como a roupa que escolhemos vestir: podemos mudá-la consoante o estado do tempo. É óbvio que no dia mais frio de Janeiro não convém usar a roupa que vestiríamos para ir para a praia num dia de pleno Verão. Parece que no mundo dos génios da adivinhação do futuro, há um seguimento dessa lógica, pelo que as previsões dadas no início do ano, possam ser como uma roupa inapropriada para a época e portanto, estão esquecidas, algures num armário que não vale a pena abrir. Agora as previsões são outras, já dizem respeito ao pico do número de casos, ao surgimento da vacina e a outras coisas que estes seres iluminados não detectaram nas suas previsões infalíveis do início do ano. Eles sabem de tudo, como um camelo sabe de álgebra. Nem vou dizer que é oportunismo, porque eles não dão a vida a ganhar a eles próprios. 

Esperemos ansiosamente pelas previsões para o próximo ano e quiçá elas sejam muito más. Arrisco-me a dizer, que se as previsões para o próximo ano falharem redondamente como as que foram feitas para este ano, então por favor, façam as previsões para um quase fim do mundo. Afinal, talvez as interpretações do calendário Maia estivessem erradas e 2012, fosse de facto 2021. Desculpem se feri as suscetibilidade de alguém ligado a este tipo de crenças, mas Júpiter e Plutão estão no mesmo ângulo e Mercúrio está retrogrado; portanto não me consigo controlar e fico espicaçado com espírito crítico e cepticismo.

“Por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas.”

FrIeDRICH NIETZSCHE

MUNDOS DE a A z

Uma cidade, um mundo: letra a letra; palavra a palavra. Vidas misturadas e conectadas, de personagens únicas e peculiares, todas elas diferentes e todas elas com impacto no mundo de cada uma.

De onde derivam os acontecimentos? Onde convergem as vidas no quotidiano de uma Amélie e de um Zack? São Mundos de A a Z.

DIA MUNDIAL DO LIVRO

O próprio Dostoievski afirmou ter saído do “Capote” de Gogol. Os melhores fenómenos de S. Petersburgo encontram-se por explicar, desde a Avenida Nevski a homens que recorrem à polícia por não encontrarem o seu nariz. É uma propagação da arte, desde os sussurros e desavenças dos Irmãos Karamázov e das pedras dolorosas que uma criança rebelde atira a adultos desconhecidos; fazendo parecer que esses pedaços rochosos queriam atingir todos os que se preparam para uma moribundez obscura e de arrependimentos, como a de Ivan Illitch.

Não fosse o Gatsby tão grande como o seu desgosto, certamente, nem assim se assemelharia a um Cândido, repleto de optimismo irracional e incompatível com a vida, incapaz de se abalar, nem com os babuínos sanguinários ou O Corvo de Edgar Allan Poe. Mesmo onde o Vermelho e o Negro dominam; as mulheres cativantes e resolutas a ignorar dolorosamente a paixão, guardam em cestos a cabeça do seu amor socialmente proibido. Orgulho, no entanto, este, sem preconceito. O Sr. Darcy pode sentir-se perdoado.

Já não se pintam retratos de loucura, que representem o envelhecimento e o mal ocultado no interior de futuros assassinos. Felizmente, talvez escapemos de um Processo como o de Kafka; e não viveremos qualquer Metamorfose que nos transformará num escaravelho gigante. Nem sempre o Dr. Jekyll se tornará em Sr. Hyde.

O Maior Espectáculo da Terra pode mesmo manifestar-se através das páginas, como Três Tristes Tigres em Havana. São Tempos Difíceis, mas os livros não se proíbem, nem se queimam a uma temperatura de Fahrenheit 451, apesar de eu desconfiar num distópico Admirável Mundo Novo, como se vivêssemos num 1984 de outro mundo.

Nem é preciso que assim fale Zaratustra.

Tempo de Histórias

Várias vozes chamaram pelo seu nome, cujos ouvidos alvos tão intensamente ignoravam, num desprezo desalentado de quem tenta perceber o impacto das suas mãos, na conversão da imaginação para um retrato numa tela molhada pela chuva incessante. Diziam-lhe que era impossível desenhar à chuva. O poder da chuva sob um artista é nulo; é até desrespeitoso inferir que a chuva impossibilitava a criação artística. Eis que debaixo da precipitação surgirá a obra do pintor incansável: após um combate real, a imaginação converte-se. Será difícil retratar a imaginação, inquieta e infinita: florestas de frio e escuro; florestas de calor e brilho: esplendor que se conforta para lá das fronteiras da alma, da verdade e da mentira, do real e do absurdo; a loucura sem limites, a sapiência inevitável de uma ímpar sanidade.

O seu pincel em corrida desenfreada perpetrava o que era visível para além da visão, de quem ignorava os chamamentos do mundo, as vozes ocultas pela capacidade de ele se abster das circunstâncias físicas: não sentia a chuva fria que lhe caía sobre as costas, não havia frio, nem calor, contrariamente, às suas florestas intérminas. Ele ignora o tempo: intocável para todos os que o iam observando e julgando, atirando-lhe juízos de valor negativos tão ferozes nos pensamentos e nas vozes daqueles para quem o tempo é intocável. Aí começava a arte daquele pintor, na desnecessidade em ser imediatamente compreendida, de ser medida.

Uma criança com um misto de sentimentos segura um guarda-chuva. Estava, claramente, assustada e ainda assim firme, abrigando um desconhecido que ela era incapaz de entender e de julgar. Um acto genuíno de preocupação diferenciou aquela criança dos adultos, porque a incompreensão não implica desprezo, mesmo quando o desconhecido ou a diferença nos possam assustar.

Não fosse, verdadeiramente, o gesto afectuoso de uma criança, e, a chuva impossibilitaria realmente a elaboração daquele quadro. Foi naquele dia de chuva, que a luz mais brilhou, permitindo à imaginação emergir novamente na realidade. O retrato mostrava-nos que amanhã não sobreviveríamos, mas o hoje ainda pode render; a exemplo daqueles que conseguem desligar-se do tempo: um artista à chuva e uma criança assustada. Nenhuma mistura é mais genuína, para revelar aos que se atreverem a ver a essência desta cândida aliança, para que a imaginação ainda persista numa realidade cada vez mais surda para as canções das florestas do frio e do escuro; do calor e do brilho.

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