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Se Nevasse no Deserto

As construções produzem sons, que não deverão ser considerados uma linguagem. Por muito que se tente traduzir os sons das construções, através deles não surgem indícios acerca do que se está a contruir. Já um coleccionador de pedras constrói em silêncio. Das suas amostras, começa a nascer um caminho, cujo destino nem ele sabe. Fabrica o que pode com as pedras que apanha, sem nenhuma razão maior para o fazer. Fá-lo porque pode e porque assim encontra uma razão para aquilo que colecciona.

Enquanto os caminhos inúteis vão crescendo rumo a uma incógnita, há quem estude a fundo certas questões e tente encontrar significados para os pesadelos dos electrões e se a nível subatómico, os protões e os neutrões possam ser afectados por isso. Um fenómeno transversal à espécie humana, para perceber de que forma as pessoas se podem sentir afectadas por algo inventado e que influência o inexistente exerce sobre elas. Estas reviravoltas só são possíveis quando se distorce a matéria da ciência para um cenário de ilusão metafísica com uma qualidade que invoca suspeitas.

Seguindo este rumo de acontecimentos, começa a dar impressão que as discussões acerca das alterações climáticas pelos políticos são uma prioridade pouco maior que os átomos onde se podem encontrar os já famosos electrões. Há evidências que os países trocam correspondências entre si acerca do assunto. Normalmente, enviadas através de pombos-correios embriagados que voam a baixa altitude e percorrem uma distância usual que vai do local onde são largados até ao primeiro obstáculo. Brevemente, talvez possamos ouvir discursos, onde se manifeste o apoio e se deem votos de confiança a estes pássaros.

Até lá, certos grupos irão continuar a tentar persuadir o coleccionador de pedras a desistir do caminho e começar a tentar conceber uma torre, de modo que esta lhes permita empurrar o céu. Segundo eles, em muitas obras, encontram-se mensagens codificadas que não podem ser ignoradas e que todas apontam para a mesma conclusão: é só uma questão de tempo, até que o céu nos caia sobre a cabeça.

Por entre tamanha azáfama, muitos preferem apenas abster-se de tudo isto e inclusive de grande parte da realidade e seguir os conselhos dos vídeos de música comercial e sem conteúdo para serem felizes. Assim sendo, satisfazem a sua prioridade de ostentar o que não necessitam ou está acima das suas possibilidades. Por entre outras futilidades, falam acerca da sua compra mais recente, enquanto se vão cansando da mesma, porque se vai perdendo o efeito de novidade. Envaidecem-se superficialmente, através dos bens onde depositam as suas frustrações, por os mesmos não lhe trazerem a felicidade que parecia estar ali e que mais uma vez se escondeu e continua a não estar à venda.

O caminho das pedras continua a crescer e daquelas que sobram, algumas são atiradas ao ar. Enquanto uns são atingidos acidentalmente, outros colocam-se exactamente na rota descendente das pedras, uma e outra vez.

Chamamento da Realidade

O caos convoca a humanidade para se sentar à mesa. Não quer negociar, porque o caos é inegociável – contrariando por ventura, os negócios que a humanidade estabelece no caos, que geram lucros a uns: por entre a desgraça e por entre os preços pagos com vidas inocentes. Sem discutir a génese da definição de inocência, facilmente, nos apercebemos que tem uma importância reduzida. Quem estabelece o caos por motivos puramente egocêntricos, desvaloriza completamente os inocentes.

É aqui que chegamos, aqui que nos encontramos. Se o século XX foi negro, para onde nos leva este século ainda recente? Um lugar na história que já veio recheado com guerra, crise, pandemia e mais guerra. Vê-se a verdade quando se olha para trás, nos momentos em que a cabeça se reergue e a baforada da realidade nos atinge com uma força tremenda no rosto; e mesmo assim, é como se nada fosse, e o ecrã luminoso que nos acompanha capta novamente a nossa atenção.

Num mar, perdidos, pelos caminhos marítimos já descobertos. Parece não haver marinheiros que nos levem a bom porto. O interregno onde nos encontramos chega a ser tão grande que, nesta questão, talvez até os piratas são de maior confiança que os navegadores obedientes.

Em breve, começar-se-ão a vender as coordenadas para o fim do mundo. A localização precisa e exacta daquilo que não é um local físico. Coordenadas temporárias: localização no tempo. Daqui a três dias; daqui a um ano, dois meses e dezoito dias. Daqui a qualquer resultado de um último cálculo que a humanidade parece querer fazer.

Os extravagantes turistas espaciais sentam-se na primeira fila para vislumbrar um retrato da Terra. Nele, vislumbra-se um planeta azulado que preenche o olho humano, cujas atenções, facilmente se dirigem para aquilo que se lhes apresenta como belo. Se por cá, muito de valor haveria para ver, torna-se desnecessário contrariar tal óbvia objectivação ao nosso mundo, quando visto de fora.

Do exterior, tornam-se imperceptíveis todos os males perpetrados pela máquina de destruição que controla o mundo. Numa plenitude onde impera o silêncio e a distância, as engrenagens suicidas da humanidade poderão apenas garantir uma revelação clara: talvez todos deveríamos ir ao espaço e ver o nosso mundo, a nossa casa ao longe. Tornar-se-ia óbvio que ela não explodirá. O nosso fim reside na implosão.

Somos o veneno que se entranhou nas veias da natureza. Somos os indignos gananciosos que tiranizamos o que não nos pertence. Que seja dolorosa esta introspecção, esta atribuição de culpa própria a todos nós. Devemos aceitá-la e procurar mudar o que estiver ao nosso alcance para não contribuirmos para uma iminente implosão.

Tempo de Histórias

Um vagabundo escreveu na parede: “A escuridão dir-te-á o que nunca verás.”. Um humano deambulante, com a solidão perpétua no encalce da sua sombra. Uma perseguição voraz que a pouca luz revela, e que teimosamente persiste a cada passo lento e arrastado dos relógios, numa constante obscuridade. A filosofia destapada, oriunda de uma mente sem tecto, completamente exposta aos elementos. Aqueles que seguem sem rumo, cujos objectivos há muito se perderam, retalham na perfeição o contraste, entre a luz e a escuridão, entre o visível e o invisível.

O mesmo vagabundo escreveu noutra parede: “O silêncio grita-te aos ouvidos.”. Assim continuará ele, imponente e incansável. Não vive ao ritmo dos despertadores, não tem de se levantar cedo no dia seguinte. As agendas são uma ilusão. As ruas afligem-se em resultado da confusão, do movimento frenético, dos olhos curiosos e dos passos apressados de quem tem compromissos. O vagabundo senta-se e aguarda. Aos poucos, a rua empobrece, desertifica-se: acaba por adormecer. Dorme a rua, em mais uma noite incapaz de avivar os sentidos.

O que se vê e ouve no presente remeter-se-á a uma mensagem comprometida no futuro. A concepção não é capaz de reter tudo. Tudo o que houve foi apenas vivido uma vez, tudo o resto pode ser parecido mas nunca será igual. Gigante pode ser o desejo de voltar atrás no tempo mas os ponteiros giram no mesmo rumo. Tudo aquilo que nos ignora segue o seu caminho: o céu escurece, a lua surge e novamente o dia foi diferente. O vagabundo voltou a ver a rua empobrecer, a desertificar-se, mas já não era a mesma de ontem e não será a mesma amanhã.

Outrora, o vagabundo tinha um testamento, tinha bens para deixar a alguém que lhe conviesse. Vaguear pelas ruas é recente. Ele trabalhou e reformou-se. Possuía uma casa e um belo jardim. Todo o tempo livre serviu para se dedicar ao cuidado das plantas. Não conheceu muito mais que a sua zona – o percurso rotineiro entre a casa, o trabalho e as compras essenciais. Nos primeiros tempos de reforma, era impossível pensar em algo diferente do que dedicar-se à jardinagem até ao fim dos seus dias. As suas flores necessitavam de cuidado e atenção, diariamente.

Bastou a morte de uma das flores: grande tragédia para tão pequeno coração. Perante ele, revelou-se apenas uma prisão florida, bela e capaz de lhe capturar o resto do seu tempo. Virou as costas e correu, desenfreadamente, sem pensar. Para trás, ficaram todos os espinhos venenosos que lhe interrompiam o discernimento, que o impediam de querer ver o mundo. A vida foi por ele finalmente descoberta, na solidão de quem vagueia por cidades esquecidas no seio da noite, por quem se esqueceu de onde veio. Ao contrário daqueles que provocavam o movimento da cidade durante o dia, ele não queria voltar atrás, não queria reformular as suas escolhas.                

O vagabundo sabe que o ar gélido nocturno continuará a propagar a sua voz enquanto as paredes suportarão as suas mensagens. O pensamento é livre e persiste, através do som, da escrita e da sensibilidade.

Clarificação de Nada em Concreto

Vamos arrastar os acontecimentos do grande plano para o pequeno plano: de Los Angeles para o local onde vivemos e vamos reflectir. Falando por mim, o meio onde vivo não é muito grande e multicultural, é um concelho cuja cidade sede é pequena, agradável e acolhedora, e mesmo assim, pode ser o retrato do mundo – que contrastando com esta cidade, é cada vez menos agradável e acolhedor.

Em Hollywood, alguém famoso, defende-se de uma piada através do recurso a uma agressão. Por aí, surgem muitos utilizadores cibernéticos, ansiosos por confinar o humor aos limites que lhes são convenientes, com fulgor no apoio ao gesto e até a mostrarem-se capazes de fazer o mesmo por motivos semelhantes. Há muito tempo que a liberdade de expressão é espezinhada – ou atacada a tiro se estiver representada num jornal satírico francês – e agora levou uma chapada, por causa de uma piada.

No local onde vivo, a cada noite de Sábado, acontece algo que se pode considerar digno de gala de Óscares: há sempre, ou, praticamente, muitas chapadas, murros, cabeçadas, pontapés e até arremessos de garrafas de vidro. Tal como em Hollywood, os motivos são estúpidos e há uma enorme audiência a delirar de entusiasmo com a violência e, provavelmente, a prepararem-se, para quando necessário, ou mesmo sem ser necessário, seguir o exemplo.

Sinto uma evidente estagnação na evolução da nossa racionalidade: uma insuficiência da mesma, cada vez mais clara. Surgem, constantemente, muros e grades, para nos fecharem neste apetite pelo recurso à violência física como resposta a várias situações. Afinal o mundo não é tão diferente em Los Angeles do que é, por exemplo, em Marco de Canaveses. Em ambos os lugares os rastilhos são pequenos.

Cada vez mais, o mundo pertence aos ofendidos e aos tiranos. Os ofendidos pretendem tiranizar todos os que se atreverem a contrariar a sua forma de pensar, aquilo que eles consideram correcto e que é inegociável. Os tiranos antecipam-se aos ofendidos e andam por aí, a invadir países democratas ou a destruir completamente a liberdade das mulheres.                

Estou certo que há problemas maiores no mundo do que este tema aqui abordado. Também tenho a certeza que já deveria ser altura de todos crescermos o suficiente e entender que não devemos querer acabar ou silenciar quem diz aquilo que não gostamos ou não estamos dispostos a ouvir. A atitude correcta depende das situações: ou contra argumentamos de forma racional e lógica ou então ignoramos determinados oradores e evitamos ouvir aquilo que nos pode ofender, embora tudo não passe de palavras.

Tempo de Histórias

O homem aguardava próximo da passadeira, enquanto uma parafernália de carros circulava o mais rápido que conseguiam; todos eles participantes numa corrida cujos adversários são o tempo e o stress. Aquele aumento da pressão sanguínea, as alterações químicas no interior do corpo, as mensagens do hipotálamo e tudo o resto a funcionar como um rastilho curto, que assim que aceso, fará a bomba explodir.

O homem ia pensando, enquanto os carros continuavam a circular. A espontaneidade do pensamento assemelhava-se ao trânsito daquele momento: fluía rapidamente. Olhava em volta e vislumbravam-se nada mais que pequenas bombas inofensivas, sempre prontas a explodir pelo mais pequeno inconveniente. São bombas que buzinam antes de rebentar, como se o barulho lançasse a mensagem para o ar: o tempo é precioso para quem não o tem. É como os esfomeados que não possuem alimentos.

Assim que possível, o homem retomou o seu percurso, tranquilo e sem pressa; contrastando perfeitamente com o que costuma acontecer na cidade. Foi tentando decifrar a ordem das coisas, dos acontecimentos, da vida em sociedade, da gestão de uma cidade grande e até da mente humana. Estas reflexões são, provavelmente, quase inexistentes na impetuosa agitação urbana e só quem está ausente dessa agitação constante, tem capacidade para as realizar.

Foi fácil e quase natural questionar pontos fulcrais na tal ordem das coisas. Quase toda a envolvência da cidade estava repleta de burocracia: há leis a serem cumpridas, procedimentos a seguir, requisições, licenças, documentação e todas as conformidades que garantem o funcionamento dos serviços. A ordem, quase que se coloca lado a lado com o caos. O senhor ia mexendo a cabeça, sinalizando um sim – como quem concorda com o seu próprio pensamento – para a existência do caos. É exactamente isso que temos entre mãos, o caos.

O caos cimenta-se na ordem: o desenvolvimento fica diferente do expectável. Cada segundo a mais num atraso é a diminuição do tamanho do rastilho de todas as bombas que deambulam pela cidade. Muitas bombas inofensivas são capazes de provocar uma grande explosão. Nós somos a ordem e o caos. As diferenças residem nas nossas decisões, muitas vezes tomadas sem as condições necessárias para o discernimento exigível.   

Chamamento da Realidade

Algumas conjecturas surgem para inquietar, como as gotas de chuva no Verão que abalam o conformismo dos amantes dos dias soalheiros. Que somos nós senão uns seres incompletos e inacabados, repletos de insatisfação e ganância. Também não somos lineares, dedutíveis ou calculáveis como uma equação. Não somos como o teorema de Pitágoras, não nos conseguem somar os catetos para verificar a hipotenusa. De Pitágoras até hoje passou muito tempo; o suficiente para se lerem textos em aparelhos que, quase de certeza, nenhuma mente da Grécia antiga imaginaria.

Não sou excepcional e por isso, também eu sou portador de uma mente que projecta uma variedade de pensamentos inquietantes. Isto está muito para além de eu ver moinhos em vales verdes, separados por um riacho que desce vorazmente por uma montanha parcialmente oculta, por um ténue nevoeiro que aviva a cor da vegetação. O verde contrasta bem com o cinzento, com a humidade das nuvens baixas, como se estivéssemos perante tímidas almas gémeas produzidas inteiramente pela natureza. Aquele seu toque que se assemelha a magia e provoca uma atracção, efémera e sincera, dos olhos humanos para as suas obras, mesmo que elas, como os moinhos dos vales, sejam apenas produtos imaginários.

Também as obras da natureza podem ser imaginadas antes de existirem, ainda que possam nunca existir. Tudo isto acontece anteriormente a algum louco afirmar que toda a natureza não passa da imaginação de alguém que não nós mesmos: estivéssemos nós a viver na mente uns dos outros e não passássemos de produtos do pensamento de alguém. Entretanto surge a dor, que numa agonia provocadora nos grita aos ouvidos a certeza de que a realidade é factual, tal como a nossa existência. O preço para a certeza de estarmos vivos é a dor, como se esta fosse o sinónimo da vida: como os beliscões que servem para perceber se estamos a vivenciar algo ou a sonhar que o estamos a fazer.

Voltando ao ínicio do texto, regresso também às inquietudes. Certamente, cada um terá as suas. As minhas inspiraram-me a escrever este texto e remetem-se às cores e à imaginação. Há algo de paradoxal entre as cores e a imaginação. Isto porque o espectro das cores colide com a possibilidade de infinidade da imaginação. Torna-se assim claro, que não somos capazes de imaginar uma cor que não existe e eis que assim, surge diante de nós, um limite para a imaginação. A mais bela capacidade humana, capaz de criar unicórnios com seis patas e cinquenta olhos, capaz de fazer o musgo crescer na lua, é ao mesmo tempo, uma capacidade que se afasta do infinito das probabilidades. A imaginação afinal tem limites, como um carro que circula numa estrada com limite de velocidade. O pensamento como uma máquina; algo mecânico suportado por rodas que circula apenas até onde os limites permitem. 

CLARIFICAÇÃO DE NADA EM CONCRETO

Tivesse o pensamento de pagar imposto e eu seria mais uma pessoa no limiar da pobreza. O meu (pensamento) é inquieto como a alma – diriam os poetas –, embora eu desconheça a inquietude da mesma. Soa-me aos ouvidos uma música húngara. A qualidade inegável de uma peça artística, oriunda de um país onde quase é proibido ser homossexual. Há crimes inventados nas profundezas da incompreensão, do conservadorismo; retrocesso ou discriminação. Obrigam-nos a cumprir a lei e cumpri-la custa dinheiro. Quem não tem posses para cumprir a lei, tem de pagar multa.

Atiro com o meu telemóvel ao ar. Era suposto apanhá-lo, mas este cai e parte o vidro do ecrã. Foi um acto estúpido, talvez comparável, ou não, aos procedimentos de alguns chefes de estado que chegaram ao poder democraticamente para a tentarem destruir. A dor maior é quando se descobre que podemos gastar o salário na estupidez. A aliada da ostentação no dinheiro desperdiçado é a estupidez. Tudo tem o valor que lhe atribuímos. Não devemos querer chegar demasiado perto do cimo do vulcão: corremos o risco de cair lá dentro.

Erguem-se monumentos estranhos. O rosto de criminosos gravados em pedras, como se a escultura os inocentasse. A justiça é cega; às vezes perde-se, caminha por locais irregulares e perde a noção. Talvez o sionismo se esconda por detrás das bombas que dizimam inocentes na Palestina: pais que morrem sem se lembrarem quais foram as últimas palavras que os seus filhos – ainda crianças – lhes disseram. O medo das palavras existe, porque palavras metem medo. Esses conjuntos de formas; letras que são desenhos com um significado revelado pelo abecedário.

Algumas pessoas tentam falar com Deus. Entidade misteriosa de outra dimensão que, provavelmente, contará com a melhor audição do universo. Os rios trespassam pedras, no seu caminho irregular que guarda um destino. Deus ainda não respondeu. Uma senhora de idade coloca umas velas em frente a uma figura em porcelana. O vento vira as páginas de um livro abandonado no meio do chão. A natureza também lê. Em pleno dia, o céu fica escuro e começa a chover. Talvez o livro falasse dos actos humanos, talvez a natureza chore. Chuva como lágrimas, nuvens como um sentimento ferido, trovões como gritos de raiva. Bipolaridade dos elementos: ou um clima enlouquecido. O capitalismo insiste que o invisível não endoidece ninguém.

Desmerecedores da erudição: como se a cultura fosse um exército; guerreia-se contra ela. Está descriminada e tem uma cova aberta. Teatros para teias de aranha. Seres de oito patas que sentem viver uma distopia. Um papagaio grita na varanda de um prédio. Um cão responde-lhe ao longe. Os comboios têm muitos lugares vazios, independentemente da velocidade que andam. O chão sustenta os pés. Caminhamos e dormimos, à espera que amanhã chegue, à espera de acordar. A maior mentira do século nasceu quando se disse que tudo ia ficar bem. O mundo não está engrenado para isso.                

Uma criança sorri enquanto corre para uma bola. Pequenos passos da alegria. Encontra-se a chave perdida, abre-se o portão do País das Maravilhas. Uma revolução destituiu a Rainha de Copas, num país que já não é só para a Alice. Esse país da inspiração, para além do ar que respiramos; sem medo, sem máquinas, sem máscaras.

Se Nevasse no Deserto

A destreza de argumentar contra uma parede é infrutífera, sempre. As paredes podem ter ouvidos, mas jamais falarão. O silêncio de uma parede que escuta a nossa semântica representa a inconsequência daquilo que possamos dizer. Posso até gritar e a minha razão recosta-se a um canto, entre paredes e completamente incapacitada. É o que acontece quando se diz que a cultura é segura. De facto é, realmente. No entanto vão-na abatendo, maltratando e mantendo-a afastada daqueles impertinentes cidadãos que comparecem a eventos culturais e espectáculos, que desenvolvem espírito crítico e um pensamento livre. Impertinentes, sem dúvida.

É com facilidade que condicionam a realização de eventos responsáveis, enquanto permitem, continuamente, eventos irresponsáveis enquanto se assobia uma música qualquer cujo significado deve ser: nas festas dança-se com máscara, não se consome álcool, mantem-se distanciamento, os abraços estão expressamente proibidos e já tenho dúvidas se ainda estou a falar de bodas, de festejos relacionados com futebol, de eventos dos partidos políticos ou da proibição de pipocas no cinema.

Bem que poderíamos comer pipocas à vontade, porque todos os filmes incoerentes que assistimos nesta pandemia persistente, não passam de filmes de pipoca, tendo em conta tamanha falta de sentido que o enredo tantas vezes revela. Como quase já ninguém frequenta cinemas, as críticas vão sendo reduzidas, mas deveríamos atingir o ponto de viragem desta guerra. A cultura é um alvo predilecto para as iluminadas medidas de prevenção do Covid.                

Que pelo menos não se ordene a queima de livros, que não haja censura e que consigamos respirar fundo, só um pouco mais, porque isto nem irá durar para sempre, nem nos conseguirão afastar para sempre daquilo que realmente insere conteúdo na nossa vida e nos faz sentir a certeza de que estamos vivos. Só um pouco mais.  

CHAMAMENTO DA REALIDADE

O aperto das situações nem sempre nos permite obter um discernimento claro da forma como devemos agir. O sentimento repentino que nasce do momento em si – do impacto imediato – é e será sempre mais forte do que a consciência geral; aquela que algumas pessoas só se inteiram quando serenam, no resfriar do pensamento após o calor repentino que impele aos actos imponderados; às palavras irreflectidas; às acções susceptíveis de causar arrependimento.

Quando sentimos algo em demasia, corremos o risco de parecer egoístas – ou mesmo de o ser. Certos pensamentos fazem-nos estar sozinhos, isolados na incompreensão: algo que parece pior do que é, porque talvez seja necessário, às vezes, um isolamento desse género. A solidão, no meio das suas interpretações muito particulares, não significa egoísmo. Onde reside então o egoísmo do sentimento ou dos sentimentos?

Antes de tentar responder à minha própria pergunta, devo esclarecer a mim próprio e aos outros que nada disto é certo e que tudo isto é inevitavelmente questionável. As reflexões podem e devem ser sempre submetidas à possibilidade do falhanço, principalmente, quando abordam assuntos de relevante profundidade. Talvez seja nessa profundidade que eu me perca, por vezes, sozinho. Na escuridão das minhas interpretações e do meu pensamento. São abismos côncavos, de saliências imperfeitas e de uma eterna queda. Tudo isso bem escondido, numa superfície cuja aparência se assemelha à maior das serenidades: o verdadeiro retrato das armadilhas dissimuladas que coloco a mim mesmo, onde se parece evidenciar que o propósito começa a desvanecer: quanto mais se tenta emergir, mais caímos.

Quiçá tudo isto seja mesmo egoísmo. Talvez tudo aquilo que nos faz sentir seja pouco. A condição humana permite-nos ver a dor, mas não nos deixa sentir toda a dor que vemos. Sentimos apenas o que nos acontece, e embora nos possamos sensibilizar com aquilo que testemunhamos, isso não é o suficiente para o sentir. Ninguém sabe o quão para além da imaginação pode estar o sentimento dos outros. Muitas vezes, nós somos apenas bombardeados com as notícias acerca de pessoas que são bombardeadas. O que é que nós perdemos enquanto permanecemos sentados no sofá? As questões levantam-se ao contrário de nós, que muitas vezes continuamos alapados, a aguardar o início da telenovela e a desprezar o sofrimento alheio.

É difícil manter a coerência nesta temática, porque todos temos o mesmo direito a sentir que o nosso sofrimento é imenso, mesmo que este não passe de uma sovinice manhosa e infantil. É nestes casos que é mais inconveniente o ponto de comparação e é quando parece mais difícil reconhecer a sorte. Há quem ainda dance em cima de uma roleta onde se joga a vida e a morte. Há quem chore, quem ria e quem ignore. A verdade é que o infortúnio de uns é a fortuna de outros. A pura composição da sociedade humana: há todo um caminho entre os destinos da miséria e da ostentação e há cada vez uma maior distância entre essas duas condições.

Afinal o que sei eu, para além de debitar dúvidas num teclado e continuar confuso sem perceber realmente o mundo onde vivo; sem que sequer me perceba completamente: a mim, que sou eu mesmo. A fonte para esta dissertação brota demasiado conteúdo, porque o mundo está repleto de imensos indivíduos e todos eles únicos e todos eles anónimos. Jamais alguém se conhecerá totalmente e por isso mesmo estamos condenados a ser para sempre desconhecidos, que um dia deambularam por este mundo sem um destino concreto, onde a maioria do mal que sucede, deriva das escolhas de alguém ou de alguns ou de todos.               

TEMPO DE HISTÓRIAS

Houve dias em que Vladimir Kuzov parecia alguém capaz de se encontrar com as suas próprias divagações; como se estas ganhassem vida ou fossem uma criação do mundo imposta a ele. Num desses dias – cuja data é irrelevante – Vlad. K. encontrou um homem aprisionado no medo da morte. A irracionalidade deste receio, não lhe permitia o vislumbre da liberdade concebida pela causa inevitável de se estar vivo, ou talvez até: de exisitir.

A existência é vã para quem não a aprecia e dolorosa para quem não a deseja. Certamente, o existencialismo em si pode ser complicado e ao mesmo tempo, bastante atractivo. É uma nascente eterna que jorra conteúdos para o pensamento; evitados pelos que futilizam a existência e apreendidos – em demasia – por quem não deseja a existência.

Vladimir Kuzov moderava-se o quanto podia nestas andanças capazes de incendiar o raciocínio daqueles que têm o atrevimento de se questionar acerca da vida e da morte. O mesmo não acontecia com o homenzinho velho de seu nome Ivan. O medo toldava-o e impedia-o de viver com o discernimento desejável para quem quer viver. Ivan tinha comprado vários caixões durante a sua vida, esperava que algum o ajudasse a enfrentar a realidade de que um dia morreria.

O seu plano era estar próximo da morte, para a enfrentar. De facto, a sua condição humana deixava-o, a cada dia que passava, mais próximo da morte. No entanto, não era o tipo de proximidade que ele desejava, porque cada vez sentia mais medo e os caixões que comprou, não o ajudavam a superar esta agonia invocada pelo temor. Estava por demais evidente: os caixões são para confortar os mortos e não os vivos.                

Vladimir Kuzov apercebeu-se do erro de Ivan. Ele deixou-se consumir pelo medo porque o seu pensamento estava mórbido. Nunca se apercebeu do limiar existente entre a vida e a morte e que basta um pequeno passo para o lado, para que em vez de se pensar no fim da nossa existência, possamos pensar em valorizar tudo aquilo que antecede esse fim. Se fosse traduzido em matemática, daria um cálculo simples: entre viver e morrer, devemos dar mais importância à vida, tentando, por entre toda a nossa significância ou irrelevância, contribuir tanto o quanto possível para que a vida de todos seja melhor.

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