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MUNDOS DE a A z

Uma cidade, um mundo: letra a letra; palavra a palavra. Vidas misturadas e conectadas, de personagens únicas e peculiares, todas elas diferentes e todas elas com impacto no mundo de cada uma.

De onde derivam os acontecimentos? Onde convergem as vidas no quotidiano de uma Amélie e de um Zack? São Mundos de A a Z.

DIA MUNDIAL DO LIVRO

O próprio Dostoievski afirmou ter saído do “Capote” de Gogol. Os melhores fenómenos de S. Petersburgo encontram-se por explicar, desde a Avenida Nevski a homens que recorrem à polícia por não encontrarem o seu nariz. É uma propagação da arte, desde os sussurros e desavenças dos Irmãos Karamázov e das pedras dolorosas que uma criança rebelde atira a adultos desconhecidos; fazendo parecer que esses pedaços rochosos queriam atingir todos os que se preparam para uma moribundez obscura e de arrependimentos, como a de Ivan Illitch.

Não fosse o Gatsby tão grande como o seu desgosto, certamente, nem assim se assemelharia a um Cândido, repleto de optimismo irracional e incompatível com a vida, incapaz de se abalar, nem com os babuínos sanguinários ou O Corvo de Edgar Allan Poe. Mesmo onde o Vermelho e o Negro dominam; as mulheres cativantes e resolutas a ignorar dolorosamente a paixão, guardam em cestos a cabeça do seu amor socialmente proibido. Orgulho, no entanto, este, sem preconceito. O Sr. Darcy pode sentir-se perdoado.

Já não se pintam retratos de loucura, que representem o envelhecimento e o mal ocultado no interior de futuros assassinos. Felizmente, talvez escapemos de um Processo como o de Kafka; e não viveremos qualquer Metamorfose que nos transformará num escaravelho gigante. Nem sempre o Dr. Jekyll se tornará em Sr. Hyde.

O Maior Espectáculo da Terra pode mesmo manifestar-se através das páginas, como Três Tristes Tigres em Havana. São Tempos Difíceis, mas os livros não se proíbem, nem se queimam a uma temperatura de Fahrenheit 451, apesar de eu desconfiar num distópico Admirável Mundo Novo, como se vivêssemos num 1984 de outro mundo.

Nem é preciso que assim fale Zaratustra.

Tempo de Histórias

Várias vozes chamaram pelo seu nome, cujos ouvidos alvos tão intensamente ignoravam, num desprezo desalentado de quem tenta perceber o impacto das suas mãos, na conversão da imaginação para um retrato numa tela molhada pela chuva incessante. Diziam-lhe que era impossível desenhar à chuva. O poder da chuva sob um artista é nulo; é até desrespeitoso inferir que a chuva impossibilitava a criação artística. Eis que debaixo da precipitação surgirá a obra do pintor incansável: após um combate real, a imaginação converte-se. Será difícil retratar a imaginação, inquieta e infinita: florestas de frio e escuro; florestas de calor e brilho: esplendor que se conforta para lá das fronteiras da alma, da verdade e da mentira, do real e do absurdo; a loucura sem limites, a sapiência inevitável de uma ímpar sanidade.

O seu pincel em corrida desenfreada perpetrava o que era visível para além da visão, de quem ignorava os chamamentos do mundo, as vozes ocultas pela capacidade de ele se abster das circunstâncias físicas: não sentia a chuva fria que lhe caía sobre as costas, não havia frio, nem calor, contrariamente, às suas florestas intérminas. Ele ignora o tempo: intocável para todos os que o iam observando e julgando, atirando-lhe juízos de valor negativos tão ferozes nos pensamentos e nas vozes daqueles para quem o tempo é intocável. Aí começava a arte daquele pintor, na desnecessidade em ser imediatamente compreendida, de ser medida.

Uma criança com um misto de sentimentos segura um guarda-chuva. Estava, claramente, assustada e ainda assim firme, abrigando um desconhecido que ela era incapaz de entender e de julgar. Um acto genuíno de preocupação diferenciou aquela criança dos adultos, porque a incompreensão não implica desprezo, mesmo quando o desconhecido ou a diferença nos possam assustar.

Não fosse, verdadeiramente, o gesto afectuoso de uma criança, e, a chuva impossibilitaria realmente a elaboração daquele quadro. Foi naquele dia de chuva, que a luz mais brilhou, permitindo à imaginação emergir novamente na realidade. O retrato mostrava-nos que amanhã não sobreviveríamos, mas o hoje ainda pode render; a exemplo daqueles que conseguem desligar-se do tempo: um artista à chuva e uma criança assustada. Nenhuma mistura é mais genuína, para revelar aos que se atreverem a ver a essência desta cândida aliança, para que a imaginação ainda persista numa realidade cada vez mais surda para as canções das florestas do frio e do escuro; do calor e do brilho.

Onde Está Vladimir Kuzov?

O ser que não o é, tem o costume de se perder. Encontrá-lo é um dilema perdido e parcialmente ausente da realidade; sendo, simultaneamente, bastante real.

A existência de Vladimir Kuzov torna-se inevitável, não só para quem o procura: qualquer um corre o risco de o encontrar nas paredes onde desabafam poetas desconhecidos, por entre multidões desconectadas, em escadarias sem propósito, debaixo da luz obtusa de um candeeiro isolado e nas atitudes inconcebíveis de um aventureiro que monta vacas, corre atrás de ovelhas e até se perde nas escadas do metro.

Vlad. K. desconfia da existência de tesouros e não foi de propósito que um dia roubou uma bicicleta. É certo que ele cantou sobre anarquia no Reino Unido enquanto caminhava por ruas italianas. Ele não se assusta com os olhares de terceiros; podem julgá-lo à vontade que ele continuará a sentar-se em frente a uma frase escrita em qualquer parede e será como se lá não estivesse.

O Vladimir Kuzov é um artista, despercebido e misterioso, no qual ninguém repara e de quem todos se desviam. Provavelmente, alguns de vós já o encontraram; caso nunca o tenham procurado.

Sigam o link para lerem acerca da demanda por Vladimir Kuzov e para mais fotos dos locais por onde ele passou: Onde Está Vladimir Kuzov?

Se Nevasse no Deserto

Eis a época do “ninguém leva a mal”. Uma época interessante, em que as criancinhas podem ser aquilo que querem. Não é que os adultos também não possam, mas o significado é diferente. Pelas crianças, todos os dias seriam carnaval, e, mesmo não sendo, na vontade delas quereriam que fossem; mas não se pode explorar vivamente a fantasia, não se pode ser um vampiro ou super-herói, quando se tem teste de matemática. Nos tempos em que há teste de matemática, os dias são normais e nos dias normais a sociedade é incansável em julgamentos mesquinhos e, praticamente, tudo pode ser levado a mal, ao contrário do que se diz na época em voga.

O receio de ser alvo do julgamento de terceiros é como uma prisão que não se vê e que nos acompanha a cada passo: um prisma escuro onde não penetra a luz; as cores não surgem tal como nada nos ilumina, por toda a insuficiência que consiste na luminosidade. É o medo: por os outros verem, os outros falarem, os outros inventarem regras que devemos seguir para não nos sentirmos excluídos daquilo a que chamam – com tanta veemência – de normalidade.

É como se o espaço fosse distinto, para os outros e para os que cumprem pré-requisitos sociais, que nem sequer são estabelecidos através do bom senso, mas da vontade em controlar opiniões e de apenas se ouvir ou ver aquilo que agrada a alguns: inflexíveis e incapazes de conviver com a discordância das suas ideologias; assemelhando-se a uma repartição desigual de privilégios. Encara-se fixamente e com alguma atenção esta reflexão que deriva da época do carnaval e eis que se espelha o mundo: num espelho onde todos se podem ver a eles mesmos e poucos encontram algo mais do que um ridículo complexo semelhante ao de Narciso, que juntamente, os eleva a um patamar imaginário de uma intocabilidade falsa e perigosa.

Não são os ouvidos moucos do dia que passa que fazem os jovens acordar durante a noite. São aqueles que ouvem, destemidos, de peito aberto: tal e qual a mente. Não há mal acordar durante a noite, principalmente, por nem todos sermos sonâmbulos. Libertos estarão certamente aqueles que na companhia do pensamento procuram respostas mais amplas: os adultos podem ser o que querem, apesar de não se saber realmente quando e de nem eles saberem o quê. Até os alienígenas podem querer ser outra coisa – esta é uma referência peculiar de interpretação do Donnie Darko –: se fossemos de outro planeta poderíamos muito bem, querer ser um coelho que anunciava o fim do mundo com precisão ao segundo; ninguém levaria a mal, mesmo que o mundo acabasse realmente.

MAIS DE: SE NEVASSE NO DESERTO

Chamamento da Realidade

As questões mais sensíveis e que se relacionam, literalmente, com a vida humana têm sempre a imposição de uma discussão complicada, séria e prolongada; um debate de opiniões insurgidas através das mais diversas questões intelectuais ou de crenças conservadoras. Esta minha opinião surge no contexto da aprovação da eutanásia, que foi um tema patenteado com um alto padrão de sensibilidade, numa sociedade por si só cada vez mais sensível, refém do politicamente correcto e das ofensas fáceis. Se o humor – aquele instrumento precioso que pretende fazer-nos rir – é capaz de causar distúrbios nas grandes massas, muito mais se esperava de um tema como a eutanásia: e muito mais teve de ser interpretado como a discussão do mesmo e não com a distribuição de panfletos que algumas paróquias da igreja católica fizeram, acudindo ao voto no “NÃO”, dada a possibilidade para um referendo, ou com um discurso intimidatório das mesmas que pretende ludibriar a percepção das pessoas idosas através do medo, pois supostamente se elas forem ao hospital, serão eutanasiadas.

Deixando um pouco de parte esta demagogia fundamentalista – lavagem cerebral dos cordeiros –, certamente, um dos pontos mais fulcrais da discussão encontra-se em torno da ética, sendo que esta tem uma posição relativa e derivativa da individualidade; por isso mesmo os profissionais de saúde podem recorrer à objecção de consciência. Chegando à individualidade, chega-se a outro ponto fundamental. Tal como esta opinião, expressa de livre vontade e a qual tenho a permissão democrática de a revelar publicamente, se assim escolher fazê-lo, acho pertinente e importante realizar quaisquer escolhas individuais, que se relacionem com a minha vida e quais as opções que eu pretendo para ela. De encontro ao que os projectos de lei defendem, enquanto a minha capacidade física e a minha lucidez permitirem, é importante possuirmos a abrangência total na autonomia de escolha individual, ainda que esta possa ser radical e que o sofrimento nos leve a pretender cessar com a nossa própria vida.

A proximidade entre a vida e a morte é uma proximidade entre aquilo que se tem e que se sabe minimamente o que é, e, entre o desconhecido. É este limiar da questão que a torna sensível, é um sustento na corda bamba, que implica uma discussão extensa da eutanásia. É bela a compaixão humanista pura, valoriza a vida humana e enaltece o valor da mesma. Por isso há momentos, em que a liberdade de escolha individual deve exponenciar-se e não permitir que terceiros impliquem e condicionem essa liberdade, que é parte tão valiosa nas nossas vidas. A minha liberdade deve manter-se minha e não ser condicionada pela vontade dos outros, caso assim seja, deixarei eu de ser livre e de optar pela minha hipotética continuidade no sofrimento de uma doença incurável ou pela morte. A eutanásia é essa liberdade, é algo individual e que nunca poderá ser uma decisão tomada por terceiros.

Escusada foi a mistura de temáticas, criadoras de areias movediças nas quais, por vezes, podemos cair e tornar difícil a locomoção racional. Os cuidados paliativos não são antagónicos da eutanásia e não é a segunda que condicionará a presença e evolução dos primeiros nos doentes que deles necessitarem. Apesar de até ter havido quem aclamasse à memória de uma pastorinha de Fátima, a liberdade dominou e a questão seguiu um bom rumo, tendo sido aprovada a autonomia individual de cada um.  

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