CHAMAMENTO DA REALIDADE

O aperto das situações nem sempre nos permite obter um discernimento claro da forma como devemos agir. O sentimento repentino que nasce do momento em si – do impacto imediato – é e será sempre mais forte do que a consciência geral; aquela que algumas pessoas só se inteiram quando serenam, no resfriar do pensamento após o calor repentino que impele aos actos imponderados; às palavras irreflectidas; às acções susceptíveis de causar arrependimento.

Quando sentimos algo em demasia, corremos o risco de parecer egoístas – ou mesmo de o ser. Certos pensamentos fazem-nos estar sozinhos, isolados na incompreensão: algo que parece pior do que é, porque talvez seja necessário, às vezes, um isolamento desse género. A solidão, no meio das suas interpretações muito particulares, não significa egoísmo. Onde reside então o egoísmo do sentimento ou dos sentimentos?

Antes de tentar responder à minha própria pergunta, devo esclarecer a mim próprio e aos outros que nada disto é certo e que tudo isto é inevitavelmente questionável. As reflexões podem e devem ser sempre submetidas à possibilidade do falhanço, principalmente, quando abordam assuntos de relevante profundidade. Talvez seja nessa profundidade que eu me perca, por vezes, sozinho. Na escuridão das minhas interpretações e do meu pensamento. São abismos côncavos, de saliências imperfeitas e de uma eterna queda. Tudo isso bem escondido, numa superfície cuja aparência se assemelha à maior das serenidades: o verdadeiro retrato das armadilhas dissimuladas que coloco a mim mesmo, onde se parece evidenciar que o propósito começa a desvanecer: quanto mais se tenta emergir, mais caímos.

Quiçá tudo isto seja mesmo egoísmo. Talvez tudo aquilo que nos faz sentir seja pouco. A condição humana permite-nos ver a dor, mas não nos deixa sentir toda a dor que vemos. Sentimos apenas o que nos acontece, e embora nos possamos sensibilizar com aquilo que testemunhamos, isso não é o suficiente para o sentir. Ninguém sabe o quão para além da imaginação pode estar o sentimento dos outros. Muitas vezes, nós somos apenas bombardeados com as notícias acerca de pessoas que são bombardeadas. O que é que nós perdemos enquanto permanecemos sentados no sofá? As questões levantam-se ao contrário de nós, que muitas vezes continuamos alapados, a aguardar o início da telenovela e a desprezar o sofrimento alheio.

É difícil manter a coerência nesta temática, porque todos temos o mesmo direito a sentir que o nosso sofrimento é imenso, mesmo que este não passe de uma sovinice manhosa e infantil. É nestes casos que é mais inconveniente o ponto de comparação e é quando parece mais difícil reconhecer a sorte. Há quem ainda dance em cima de uma roleta onde se joga a vida e a morte. Há quem chore, quem ria e quem ignore. A verdade é que o infortúnio de uns é a fortuna de outros. A pura composição da sociedade humana: há todo um caminho entre os destinos da miséria e da ostentação e há cada vez uma maior distância entre essas duas condições.

Afinal o que sei eu, para além de debitar dúvidas num teclado e continuar confuso sem perceber realmente o mundo onde vivo; sem que sequer me perceba completamente: a mim, que sou eu mesmo. A fonte para esta dissertação brota demasiado conteúdo, porque o mundo está repleto de imensos indivíduos e todos eles únicos e todos eles anónimos. Jamais alguém se conhecerá totalmente e por isso mesmo estamos condenados a ser para sempre desconhecidos, que um dia deambularam por este mundo sem um destino concreto, onde a maioria do mal que sucede, deriva das escolhas de alguém ou de alguns ou de todos.               

DIA MUNDIAL DO LIVRO

O próprio Dostoievski afirmou ter saído do “Capote” de Gogol. Os melhores fenómenos de S. Petersburgo encontram-se por explicar, desde a Avenida Nevski a homens que recorrem à polícia por não encontrarem o seu nariz. É uma propagação da arte, desde os sussurros e desavenças dos Irmãos Karamázov e das pedras dolorosas que uma criança rebelde atira a adultos desconhecidos; fazendo parecer que esses pedaços rochosos queriam atingir todos os que se preparam para uma moribundez obscura e de arrependimentos, como a de Ivan Illitch.

Não fosse o Gatsby tão grande como o seu desgosto, certamente, nem assim se assemelharia a um Cândido, repleto de optimismo irracional e incompatível com a vida, incapaz de se abalar, nem com os babuínos sanguinários ou O Corvo de Edgar Allan Poe. Mesmo onde o Vermelho e o Negro dominam; as mulheres cativantes e resolutas a ignorar dolorosamente a paixão, guardam em cestos a cabeça do seu amor socialmente proibido. Orgulho, no entanto, este, sem preconceito. O Sr. Darcy pode sentir-se perdoado.

Já não se pintam retratos de loucura, que representem o envelhecimento e o mal ocultado no interior de futuros assassinos. Felizmente, talvez escapemos de um Processo como o de Kafka; e não viveremos qualquer Metamorfose que nos transformará num escaravelho gigante. Nem sempre o Dr. Jekyll se tornará em Sr. Hyde.

O Maior Espectáculo da Terra pode mesmo manifestar-se através das páginas, como Três Tristes Tigres em Havana. São Tempos Difíceis, mas os livros não se proíbem, nem se queimam a uma temperatura de Fahrenheit 451, apesar de eu desconfiar num distópico Admirável Mundo Novo, como se vivêssemos num 1984 de outro mundo.

Nem é preciso que assim fale Zaratustra.

Chamamento da Realidade

As questões mais sensíveis e que se relacionam, literalmente, com a vida humana têm sempre a imposição de uma discussão complicada, séria e prolongada; um debate de opiniões insurgidas através das mais diversas questões intelectuais ou de crenças conservadoras. Esta minha opinião surge no contexto da aprovação da eutanásia, que foi um tema patenteado com um alto padrão de sensibilidade, numa sociedade por si só cada vez mais sensível, refém do politicamente correcto e das ofensas fáceis. Se o humor – aquele instrumento precioso que pretende fazer-nos rir – é capaz de causar distúrbios nas grandes massas, muito mais se esperava de um tema como a eutanásia: e muito mais teve de ser interpretado como a discussão do mesmo e não com a distribuição de panfletos que algumas paróquias da igreja católica fizeram, acudindo ao voto no “NÃO”, dada a possibilidade para um referendo, ou com um discurso intimidatório das mesmas que pretende ludibriar a percepção das pessoas idosas através do medo, pois supostamente se elas forem ao hospital, serão eutanasiadas.

Deixando um pouco de parte esta demagogia fundamentalista – lavagem cerebral dos cordeiros –, certamente, um dos pontos mais fulcrais da discussão encontra-se em torno da ética, sendo que esta tem uma posição relativa e derivativa da individualidade; por isso mesmo os profissionais de saúde podem recorrer à objecção de consciência. Chegando à individualidade, chega-se a outro ponto fundamental. Tal como esta opinião, expressa de livre vontade e a qual tenho a permissão democrática de a revelar publicamente, se assim escolher fazê-lo, acho pertinente e importante realizar quaisquer escolhas individuais, que se relacionem com a minha vida e quais as opções que eu pretendo para ela. De encontro ao que os projectos de lei defendem, enquanto a minha capacidade física e a minha lucidez permitirem, é importante possuirmos a abrangência total na autonomia de escolha individual, ainda que esta possa ser radical e que o sofrimento nos leve a pretender cessar com a nossa própria vida.

A proximidade entre a vida e a morte é uma proximidade entre aquilo que se tem e que se sabe minimamente o que é, e, entre o desconhecido. É este limiar da questão que a torna sensível, é um sustento na corda bamba, que implica uma discussão extensa da eutanásia. É bela a compaixão humanista pura, valoriza a vida humana e enaltece o valor da mesma. Por isso há momentos, em que a liberdade de escolha individual deve exponenciar-se e não permitir que terceiros impliquem e condicionem essa liberdade, que é parte tão valiosa nas nossas vidas. A minha liberdade deve manter-se minha e não ser condicionada pela vontade dos outros, caso assim seja, deixarei eu de ser livre e de optar pela minha hipotética continuidade no sofrimento de uma doença incurável ou pela morte. A eutanásia é essa liberdade, é algo individual e que nunca poderá ser uma decisão tomada por terceiros.

Escusada foi a mistura de temáticas, criadoras de areias movediças nas quais, por vezes, podemos cair e tornar difícil a locomoção racional. Os cuidados paliativos não são antagónicos da eutanásia e não é a segunda que condicionará a presença e evolução dos primeiros nos doentes que deles necessitarem. Apesar de até ter havido quem aclamasse à memória de uma pastorinha de Fátima, a liberdade dominou e a questão seguiu um bom rumo, tendo sido aprovada a autonomia individual de cada um.  

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