Chamamento da Realidade

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O céu é capaz de clamar, através de uma música, o nome de cada um dos fiéis e crentes na sua existência. A distância entre o céu e a Terra – entre o paraíso e o mundo comum – é muito ténue. O receio perante tal distanciamento reside no facto do céu não ser para os vivos, é bastante mais exclusivo e destina-se apenas aos mortos; caso esses, enquanto vivos, terem desempenhado uma série de comportamentos condizentes com uma espécie de moral suscetível de alterações, consoante as conveniências, daqueles que vendem entradas para o céu.

As ideologias dos vendedores de entradas para o céu variam: são dependentes das suas interpretações, mais ou menos literais, dos seus textos e ensinamentos religiosos. É comum no médio oriente, alguém vender entradas para o céu através do mártir. Esses que se martirizam, nunca questionaram o porquê – nenhum porquê provavelmente – de quem os convence ao suicídio para causar a morte de pessoas inocentes e rotuladas de infiéis, nunca ter cometido ele próprio, tal mártir. Talvez os professores de bombistas suicidas, sejam corruptos e fiquem com algumas entradas celestiais para eles próprios, ou então sejam regalias da sua profissão.

A distância é realmente ténue. Torna-se assustadora. Todos querem ir para o céu, mas ninguém quer morrer. É tudo um momento, semelhante a todos os outros que ficam esquecidos ou subpostos a compromissos e obrigações: pesos demasiado pesados e capazes de anunciarem a morte em vida. Deve-se assimilar a importância dos momentos, para que estes se vivam e não sejam apenas expectativas e sonhos exterminados. Dostoiévski transmite-nos isso através da “Submissa” – um momento pode definir tudo. Num momento podemos viver, podemos morrer ou podemos escolher uma dessas opções. Na janela, bastava um passo e a queda seria fatal. Tudo resultou de um momento que levou uma jovem a escolher o único destino definitivo. Este suicídio é ficção, as entradas para o céu também. O único paraíso possível é o que a vida dá, aqui, na Terra. Certamente não será ao ignorar as chamas que consomem o mundo, que este deixará de arder.


undefinedTodos temos escuridão e luz dentro de nós. Escolhemos o que somos, o que queremos; dias diferentes, novos. Onde nada é certo: tudo pode acontecer. A revelação é simples. Nesta floresta onde me perco, imaginária, não existem bestas ferozes. Solto os meus medos, que livres, invadem pequenas casas de madeira. A ausência do vislumbre da realidade não guarda receios. Tão livres são os medos, como quem os liberta. Essa herança evolutiva: o fogo aceso para afastar os predadores do nosso sono.

Todos temos escuridão e luz dentro de nós. Escolhemos o que somos, o que queremos; dias diferentes, novos. Onde nada é certo: tudo pode acontecer. A revelação é simples. Nesta floresta onde me perco, imaginária, não existem bestas ferozes. Solto os meus medos, que livres, invadem pequenas casas de madeira. A ausência do vislumbre da realidade não guarda receios. Tão livres são os medos, como quem os liberta. Essa herança evolutiva: o fogo aceso para afastar os predadores do nosso sono.

Agora o sonho é outro. O sonho que desperta uma consciência ainda adormecida. Jamais acordarei ao som da minha própria voz. Há muito mais em todos os dias que começam.

A mente é que tal como os medos, deve estar liberta. Não tem de estar numa constante sintonia com o corpo – podem-se separar por momentos. Assim se descobre mais sobre nós próprios. De nada serviria uma existência humana, se não fosse questionada.

Por isso, regularmente, me pergunto quem sou, descobrindo que não sei. Vou sabendo, porque me procuro, como procuro tudo e sendo eu insignificante, talvez no fundo, não me procure.

Desvendo que não sou o Vladimir Kuzov, que é aquilo que mais procuro; assim sendo sei que não persigo os passos de mim próprio. Um dia, estarei cansado de procurar, e novamente, ficarei ausente.                

Retomo a consciência, desaparece a floresta. Os meus medos voltaram e eu cumprimento novamente a realidade. Ao contrário da minha floresta, o mundo está cheio de bestas ferozes. O medo vai para sempre persistir: resta-nos a coragem para viver.


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Com o despontar de uns raios de sol, na janela, um homem acorda. Ele temia o seu próprio quarto ao despertar: achava que a sua vida era complicada, e que todas as dificuldades começavam ali, sempre, naquele quarto, em cada dia que ele acordava ao amanhecer.

As facilidades e as partes positivas da vida eram impiedosamente abafadas, pela preguiça que a alvorada reservava. Dormir parece a solução mais apetecível, embora vazia, porque quem vive não fica só, contrariamente à condição daquele homem quando acordava.

Entre voltar a dormir, ou acordar definitivamente, variam as preferências que cada um idealiza. São opções onde o fácil dificulta e o difícil facilita. Estas variáveis influenciam grande parte das escolhas, requeridas pela existência. Divagar demasiado por entre ambas, é um baloiço de indecisões; parado por não ter influência da gravidade, que se ausenta. O tempo não para, como quem, sendo influenciado por este, corre o risco de parar.

O homem acordou, num novo dia. Desta vez aprontou-se a enfrentar, de forma destemida, o pavor que lhe causava o quarto. Não foi fácil, mas valeu a pena: pensou ele.


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Através das sombras, há uma luz que teima em não brilhar. Como uma a noite que se arrasta, inflexível e fria. Teimosamente, impede que as crianças brinquem no exterior, num relvado que sob a luz seria verde.

Tudo está em risco de perder as suas cores, não garantindo que tudo se torne igual. Grande parte da essência deste todo está para além daquilo que se vê: das cores, da forma ou da textura. Nem tudo é arte, naquilo que ocupa o espaço que vamos percorrendo.

Se tudo estivesse vazio, nem a luz, nem as cores seriam importantes. O céu não seria azul, os pássaros não se vislumbrariam num contraste com esse azul.

É mau, quando se olha em redor, e, apesar da luz e de todas as cores do espectro – sem necessidade de imaginar uma nova –, há quem veja tudo como se já estivesse vazio. É uma muito reduzida valorização, de grandes significados.                

Com rodas travadas, a bicicleta não se move, mas o local onde ela está parada, mantém-se belo; para quem olha em redor.


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Os gostos não se discutem. Diz-se, normalmente, por aí. Talvez um anjo tenha descido dos céus, algures nos tempos que decorreram na Terra e tenha pronunciado tal frase. É inegável a conotação divina que ela ganha, porque há muito que se tenta deixar de discutir não só os gostos, como as opiniões; surgindo inclusive imposições do silêncio, como se agora a censura fizesse parte das exigências do povo e não de tiranos e ditadores.

É indiscutível a liberdade de cada um gostar do que quer, não é discutível a critica aos gostos. Não é que essa discussão seja realmente importante, porque o que está em causa não é o incutir novos gostos nos outros: o fulcro da questão está na maior compreensão por parte de todos a estarem dispostos a discutir o que quer que seja, contrariando o silêncio, este que por vezes arrasta multidões para a aceitação cega de opiniões que podem estar nitidamente erradas – a não ser que a moral me engane.


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