Clarificação de Nada em Concreto

Publicações Anteriores – Clarificação de Nada em Concreto

undefined

Ele não sabia como é que algo morto poderia estar vivo. As explicações ilógicas são úteis – como camiões carregados de areia no deserto. É irrefutável que o morto não se torne vivo, contrariamente à capacidade que o inexistente tem de se sublevar à existência.

Apesar de se ter mantido com as suas cores habituais, o mundo parou, com a paragem do tempo – e não há tempo que conte o tempo que está parado. Contudo não está morto. O universo cessou por momentos as suas leis, suspendeu-as durante uma indeterminada e inatingível forma de medição desconhecida, em oposição ao tempo que se desligou.

Os pássaros pararam no céu, tal como os peixes no mar. Não havia o movimento sequer de uma massa de ar. Tudo estava imóvel, num impasse milagroso; com uma única testemunha que ia vencendo o tempo, que se ia superando às leis do próprio universo. Um ser que não o era; vivo e inexistente que tornou finito o cosmos e o circundou com uma corda. Puxou a ponta da corda com toda a força que tinha: queria destruir tudo, dar lugar somente ao vazio: ausente de qualquer matéria e energia. Nada feito, o universo imperou novamente, para além de qualquer entidade, irreal e claramente imaginária. O milagre, nunca existiu; as leis nunca foram suspensas.


undefined

Não adianta procurar a luz num percurso negro. Isso torna-se numa busca pelo inexistente. Essa luz, que ilumina percursos negros – além de não existir –, seria insignificante; olhos fechados não dependem de luz para ver. Falta a vontade, o despertar; muito para além dos despertadores, dos relógios, do tempo ou da claraboia no telhado.

O sono é compacto, como aquele programa de televisão. As ilusões também estão à venda e provavelmente irão esgotar depressa. Nem tudo é material nas compras dos materialistas, que se comovem pela dificuldade que um agricultor tem para casar. Numa semana muitas modas se alteram. É um fruto da impaciência, de um aborrecimento invencível e disfarçado por um olhar contínuo para o ecrã do telemóvel e pela desvalorização instantânea de tudo que exija o mínimo de compreensão – parecido com este texto. Haveria ainda muito para descobrir, não fossem as pessoas querer tanto que lhes sirvam a comida à temperatura certa.

Numa semana é moda o feminismo, na outra, é moda ignorar a misoginia televisiva. A influência impera nas escolhas, tal como o poder de compra decreta a infelicidade nos eternos insatisfeitos e incompreensíveis seres arrogantes; caminhantes do percurso negro de muitos – de quase todos. Nem Deus é capaz de perdoar os “Beatles”. Todas as músicas com mais de um ano são velhas e por consequência más. Não se ofendam pelo sarcasmo nem pela generalização.


undefined

Perde-se sem saber por onde: tudo aquilo que já ninguém sabe. Aquela alegria, nunca ingénua, sempre inocente. Esse negro, antecedente da própria noite, faz faltar a visão. Falta viver! Os momentos, pequenos e grandes; desconsiderados como sons audíveis e imperceptíveis. O hedonismo falhou, a vida entra em falência.

É uma ruptura face ao diferente, tudo é demasiado igual, parecido demais. Todos os passos podem ser dissemelhantes, mas o percurso não muda. Vidas monótonas, descoloridas. Corre-se pelo lado errado da estrada, com receio de a atravessar. Receios que são excessivos: incitam a estranheza nos dias que se repetem – aparentemente –, como uma sala de cinema obsoleta que exibe sempre o mesmo filme.

Pensamento amarrado, por amarras desnecessárias, que dizem que se está onde não se quer estar. Talvez o submundo seja uma escapatória, pela sua convergência com o existencialismo. A hospitalidade do axioma da existência humana, é uma faca cravejada no peito, cuja dor provocada, só se ausentará depois de a vida ser prioridade, e, os sonhos uma realidade.


undefined

Mais um texto demasiado longo para ser lido: ainda sem eco, a locução da Morte vai-se tornando cada vez mais forte, mais audível. Tudo não passa ainda de um sussurro, desrespeitado e ignorado. Só no limite é que se ouve; o bom senso impera sempre tarde de mais, após uma nova tragédia, uma outra catástrofe. O impulso humano pelas causas é accionado pelo choque; reconhecendo-se uma limitação grave para legitimar a verdade das descobertas científicas e dos chamamentos de alerta. A ignorância e a pseudociência vão abafando o sussurro: enquanto um peixe asfixia num plástico e um urso polar morre de calor; semelhante a um idoso de uma aldeia remota que não aguenta uma vaga de calor anormal, imposta pelas alterações climáticas.

A humanidade desprotegeu-se, na alçada dos interesses: da única minoria capaz de fazer a diferença – os magnatas. Nem que as baleias voassem – como na música dos ecológicos Gojira –, se olhava para o estado suicida que vai apoderando a nossa espécie. O resultado imperial da ganância: na destruição de mais uma árvore, numa nova exploração petrolífera, no consumismo irracional e sobrevalorizado; que vai reduzindo à nulidade os recursos essenciais para a nossa sobrevivência.

Não haverá futuro para pensar; as mentes humanas adormeceram demasiado cedo. Há preocupação no encaminho de uma criança, que não sabe falar, para um caminho de fé. Ensinam-se as preces, remetidas a um produto imaginário em vez da necessidade do pensamento crítico e de uma mente aberta. Os progenitores falham, ao desconsiderarem a realidade, porque a tal criança que ainda não fala, pode estar condenada a conviver com a nossa própria extinção.                

O grito da Morte é assim, extremamente duro e difícil de suportar. Todas as mudanças, que a maioria vai ignorando, vão abafando o som de uma trompeta sem Gabriel: sinal daquilo que está por vir. Talvez seja esta dureza que falte, aquele tal choque que impulsione a humanidade a pensar e a mudar. O derradeiro poder é natural; embora o mundo continue e a vida neste prevaleça, a humanidade pode estar condenada. Será que as mentes que se deitam tão cedo já acordaram?  


undefined

A irrelevância de Vladimir Kuzov tornava-o num ser despercebido, quase invisível; ao contrário, de quase tudo que não o envolvia e, essencialmente, de quase tudo que acontecia perto dele. A ausência física de alguém que esteja vivo, relativamente, ao local em que esse alguém esteja é ainda impossível; um bocadinho menos impossível, contudo, para Vladimir Kuzov. Era na proximidade a esta ideia metafísica que ele gostava de estar, sendo que isto lhe permitia observar o que o rodeava, despreocupadamente.

Dono de vários negócios, Ivan Vasielich utilizava meios muito particulares para obter o melhor desempenho dos seus funcionários. Este comportamento – imperceptivel para a maioria –, foi observado de forma diligente por Vlad. K. Esses meios eram especialmente perceptíveis na relação que Vasielich mantinha com o seu empregado Smerdyakov. O chefe tinha o costume de o espicaçar, recorrendo a diversos dizeres, alguns deles inventados e até incoerentes, mas que provocavam constantemente reacções em Smerdyakov. Essencialmente, os impulsos explosivos, expressões de raiva e revolta no seu olhar e a libertação de palavras com notório tom de agressividade, deleitavam Vasielich, que tinha a certeza que de seguida, a execução laboral do seu empregado seria ainda melhor do que regularmente já era.

Certo dia, no final da manhã de um dia em que o trabalho apertava, Vasielich dirigiu-se a Smerdyakov, implicando com este, dizendo-lhe que havia muito que fazer e que não pagava aos empregados para que estes enviassem telegramas às suas amadas durante o horário de trabalho. Esta tentativa de fazer com que uma diferente demonstração de carinho vencesse através da distância, não incomodava realmente o chefe, mas, perspicazmente, utilizou o sucedido para provocar mais um acesso de raiva em Smerdyakov, que na tarde desse dia, redobrou o seu ritmo de trabalho, que na verdade e apesar do telegrama, tinha sido bom durante a manhã.

O chefe sentia-se concretizado por espremer ao máximo a capacidade do seu funcionário: alguém de quem ele gostava como pessoa. Gabava-se nos seus encontros sociais que o estava a transformar num homem sério e que era desta forma que um indivíduo de negócios deveria gerir os subordinados: com boas relações humanas e sendo compreensivo e exemplar. O certo é que a relação de Vasielich e Smerdyakov era de amizade e não apenas de líder e empregado. Assim, Vasielich usufruía de todos os momentos que lhe aprouvessem, para com os seus argumentos – por vezes ilógicos – e com a sua particular capacidade oral, regozijar-se por conseguir enervar constantemente Smerdyakov, com um gozo que este parecia tardar em reconhecer típico no seu chefe e amigo. Algo que era há já algum tempo percebido pelo ser que não o era: Vladimir Kuzov.


undefined

Há impulsos que incitam movimentos populares, em protestos que tentam implementar mudanças e melhorias na vida daqueles que se sentem prejudicados e que recorrem à união, para obter uma força que os faça atingir aquilo a que eles têm direito. Obviamente, o funcionamento político do mundo é no geral, e inevitavelmente, um meio de favorecimento, de interesses egoístas, que tanto podem escalar no poder através da democracia, da violência supressora, como através de um despotismo demagogo.

As máquinas de propaganda são actualmente, de fácil acesso e de poderosa eficiência. A circulação de notícias falsas e adulteração de diversos fenómenos que provocam reacções tão diversas como o incremento do ódio e a identificação populacional em idealismos extremistas discriminatórios, bem como a propagação de conspirações e o negacionismo de factos científicos ou históricos. É o medo quem mais se pavoneia por entre as interpretações débeis.

Tudo se encaixa no egoísmo, desta espécie que é capaz da união mas incapaz de se desprender deste defeito que influencia as mentalidades de cada um. Quem nos governa também é humano, também há egoísmo neles. É aí que ele pode ser mais perigoso. Falta transparência, falta desinteresse nos interesses minoritários e geralmente gananciosos de quem tem um propósito democrático – ou não – de liderar uma população e que se permite a este tipo de obsessões. 

A imperfeição estará sempre latente na vivência da sociedade. Os dias repetidos são abalados por pequenas explosões mediáticas, que silenciam os acontecimentos, como se estes deixassem de acontecer só porque já não interessa ou não se gera audiência ao falar neles. A Colômbia luta essencialmente contra a corrupção, o Líbano e a Indonésia lutam pelo mesmo. Os chilenos sentem-se injustiçados pelos aumentos dos preços nos transportes públicos em Santiago, privatizações e desigualdade iminente e pretendem melhorias nas suas condições de vida, num país que era um modelo económico da América Latina e vai expondo escândalos de corrupção. Na Venezuela ainda não está tudo bem, tal como na Síria não reina a paz. O Iraque não explora os recursos do seu país corrompido e não cria empregos. A Bolívia vai dançando entre um extremismo de esquerda e uma perigosa – também extrema – direita fascista, racista e militarizada – uma mulher conservadora tenta agarrar o poder através da autocracia e de Bíblia em riste: desconhecendo possivelmente que aquele livro misógino não é a favor das mulheres exercerem poderes. Contrariamente a isto, o Irão insurge-se na luta contra a República Islâmica e tenta incrementar a laicidade no país.

Enquanto grandes massas gritam em exigências por melhorias, por igualdade e justiça nós continuamos por cá, na nossa imperfeição, sentados e estarrecidos por trabalho a mais, a pensar que afinal talvez não estejamos tão mal. Trata-se de uma questão de tempo, assuntos diversos irão surgir e esquecemos novamente o que não nos afecta directamente: é como quem dorme, tem facilidade em conformar-se e em esquecer-se.


Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: