NIKOLAI

Nikolai desassossegava-se perante as evidências da maldade. Obviamente, que num mundo imperfeito tem de haver espaço para a maldade. Nikolai via os carros que passavam por si na rua, pessoas de rosto sério, focadas com o seu olhar em frente, seguiam percursos automáticos, num dia rotineiro, pouco diferente do anterior. Ninguém estava perdido, ninguém andava à descoberta, ou curioso: perante a beleza circundante, que estando diariamente no nosso caminho, é ignorada.

É de cabeças coladas ao pescoço que surge a maldade. Semelhantes àquelas, nos carros que ele vira. Se a cabeça descolasse momentaneamente do pescoço, nenhum daqueles condutores repararia nesse acontecimento extraordinário.

 Olga dizia que isso se devia a uma crescente robotização da sociedade. Sem dúvida que as obrigações não são emocionantes, pensou Nikolai, enquanto tentava, continuamente, perceber de onde vinha a maldade, limitando-se a ver os carros a passar. Talvez a maldade ande à boleia.

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