Se Nevasse no Deserto

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A curiosidade tem a capacidade de demover a persistência do sono, como se viesse embutida numa bebida energética transcendente – invisível – e que só um ser mágico nos consegue introduzir no organismo. Uma espécie de feitiço, que nos atinge a sonolência mas que não nos mata a sede.

Os gritos, de uma inquietude mental, não resolvem problemas de hidratação porque nos obrigam a mover e a não nos contentarmos com o sedentarismo dos que se fecham perante novas descobertas.

É imperativo parar de estar parado. A curiosidade é a combustão perfeita para tal. O mundo aceita com maior facilidade aqueles que se movem para o conhecer – o mundo necessita que o conheçam –, assim como para obter novas respostas ou fazer novas perguntas.

É ilegítimo acreditar na possibilidade do céu nos cair na cabeça; longe vão os anos da Gália e do Império Romano. Há sempre algo mais, desnecessitado do tudo, já que o tudo não é tangível.

O pensamento deve ter a liberdade de se transformar numa espiral ou numa nuvem astral, semelhante a uma galáxia: conteúdo pequeno do nosso próprio universo; este que é verdadeiramente infinito.


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Há estudos a revelar que alguns primatas estão cada vez mais parecidos com os humanos – talvez dancem a um ritmo diferente de uma música parecida –; estes por sua vez, além de serem também primatas, revelam tendências ocasionais de regressões comportamentais a uma escala evolutiva.

O comportamento humano não funciona como uma máquina do tempo, nem nunca será através do comportamento humano que um cientista irá concretizar o sonho de uma invenção inédita e tão almejada.

Esta nota quase científica, que morreu na pretensão de o ser, serve apenas para demonstrar as dissemelhanças entre tudo aquilo que o ser humano pode ser. Se no conto de Edgar Allan Poe, um orangotango enraivecido – que até quis aparar a barba com uma lâmina – comete um crime assemelhando-se a um homem, também os humanos cometem atrocidades, que nenhum orangotango enraivecido cometeria.

Estas comparações simiescas são capazes de provocar inquietação suficiente, para coagir reflexões em algumas mentes. Esta parte é bastante humana: mais nenhum animal tem esta capacidade cognitiva. Nem isso, apesar de tanto, nos torna livres de actos imorais.                

A moral vai continuar frágil e mutável, perante as várias situações, experiências e influências da vida. Há uma beleza, na capacidade de apreciar a beleza da simplicidade da luz solar: um pôr-do-sol visto de um planalto próximo ao oceano. Esta discordância resume parte do comportamento humano. Não é necessário encontrar um detective perspicaz, para nos mostrar as evidências: os outros primatas não criam guerras – não é por obra deles que o mundo vai expirando.


undefinedOs prados verdes esquecidos; a leveza do que é natural, o desprezo e o mau trato. É desrespeitosa: a destruição do que é mais valioso. Os prados verdes continuarão esquecidos, apesar das ovelhas, que os podem conservar.

Estas ovelhas deixam-se arrastar, por aquilo que parece inofensivo; sendo no fundo um veneno poderoso contra a saúde do planeta. São ovelhas confusas, que acreditam ter medo do escuro, quando apenas temem acender a luz: a iluminação revela a inconveniência. Não é nunca o escuro que se teme; é aquilo que ele guarda.             

Os prados verdes continuarão esquecidos; destino inevitável da natureza. As ovelhas continuarão a sua marcha, sintonizada e sem ritmo. Seres pecadores confessam-se aos lobos, esperam pelo perdão, numa idolatria ignorante. A ignorância predomina, nesta luta séria. Os oceanos falaram: os prados verdes não concederão perdão.


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Sentamo-nos e olhamos o céu, destemidamente, encaramos aquele portal para o universo: invariável redutor do nosso planeta. Tudo parece muito amplo ou profundo; aparentemente sem fim. Este nosso universo, o de todos, não nos impede de construir um universo próprio, único a cada um. O infinito é uma ilusão, a vida é finita, todos os universos são finitos. É a sensação de finitude que incita o propósito: nenhuma vida deve terminar em vão!

Os anseios pela obtenção e pela realização desconectam-nos da noção do tempo. Este é sempre demasiado rápido, indubitavelmente insensível: porque não é possível pará-lo ou abrandá-lo sequer.

São as ideias a fluírem no pensamento, sensatas ou absurdas, que se transformam em algo capaz de nos mover, imperceptivelmente, pelo tempo, como se este acelerasse. Sinal que a vida deve ter certos objectivos e devem ser concretizados rapidamente. Que os receios, não sejam um impeditivo da concretização: é simples.


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A fome que se sente por um alimento espiritual, é única, na sua razão de existir e na forma como é sentida. O saciar desta, corresponde inevitavelmente, às diferentes personalidades, formas de pensar e heranças antropológicas de cada individuo; sendo preponderantes: a educação e o crescimento, que podem condicionar ou não um pensamento crítico individual. Deste raciocínio – como em todos – surgem opiniões dissertes, como a vontade que cada um pode atribuir: ao merecimento de algo existente, em ver ou não ver a luz do universo.

 Provavelmente, um estômago vazio inviabiliza a persistência deste tipo de comparações: talvez esta condição sentida através do hipotálamo não seja a fonte ideal para que prevaleçam as pertinentes considerações acerca da fome espiritual. São reflexões inertes, respeitantes à sublime capacidade cognitiva da humanidade, ocasionalmente, tão banalizada e desaproveitada.

É desnecessária qualquer associação do espiritual ao sobrenatural. Basta a audição de uma música – algo que inquestionavelmente não é sobrenatural – para sermos remetidos à unicidade do espiritualismo distinto a cada indivíduo. São possibilidades, tangíveis quando algo não é somente feito para contrariarmos o aborrecimento, mas sim quando os verdadeiros significados são procurados, essencialmente na arte.

Há assim uma crescente importância do cepticismo, no comportamento social humano, por tudo aquilo que inflama opiniões de mentes fracas e apreendedoras daquilo que é apenas condizente com as suas crenças. É importante desmistificar os assuntos, impelindo a que a própria crença seja fragilizada, como deve ser, e como acontece com qualquer condição humana.

Não se constroem templos para cães, porque seria imprudente e desnecessário. Se qualquer espiritualismo canino existisse, teria sido inventado pelo homem e até ao fim dos tempos, permaneceria ausente do conhecimento canídeo. É por demais evidente, que até no medo, os restantes animais temem de forma mais coerente. Somos o único animal temerário a esta particular concepção da nossa mente: ao sobrenatural. Nenhum cão reza nos templos; nenhum cão foge de fantasmas. Melhor dizendo: nenhum cão foge do pensamento humano.


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