SISSY

Sissy tinha o desejo de ser uma actriz. Embora já tivesse mais de trinta anos, ela não desistia e tinha quase a certeza: antes de morrer viria ainda a ser actriz. O único problema de Sissy é que ela representava mal e não era muito inteligente. Ela traiu o marido dezenas de vezes, com homens que lhe diziam ser agentes que a levariam à ribalta, que fariam dela uma das melhores: mais famosa que a actriz mais famosa do momento.

Estas promessas alongadas, de homens que eram mentirosos; uma espécie de artistas da representação mais baixa que há, não abalavam as esperanças de Sissy. Certas companhias, já nem aceitavam mais audições de Sissy, mas sempre que possível, lá estava ela, pronta para mais uma audição e prestes a levar com uma negação e com um incentivo agressivo para que desista de tentar ser actriz.

Cansada de tantos falhanços, decidiu que representaria diariamente, na vida quotidiana. Se o fizesse, a representação tornar-se-ia natural e provavelmente seria selecionada num próximo casting. No primeiro dia das representações citadinas de Sissy, ela fingiu ser cega.

Numa das avenidas mais movimentadas da cidade, enquanto atravessava a estrada, fechou os olhos, para entrar na essência da sua personagem. Infelizmente, para ela, Tom vinha distraído e atropelou-a. A representação não podia continuar.

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