Tempo de Histórias

Várias vozes chamaram pelo seu nome, cujos ouvidos alvos tão intensamente ignoravam, num desprezo desalentado de quem tenta perceber o impacto das suas mãos, na conversão da imaginação para um retrato numa tela molhada pela chuva incessante. Diziam-lhe que era impossível desenhar à chuva. O poder da chuva sob um artista é nulo; é até desrespeitoso inferir que a chuva impossibilitava a criação artística. Eis que debaixo da precipitação surgirá a obra do pintor incansável: após um combate real, a imaginação converte-se. Será difícil retratar a imaginação, inquieta e infinita: florestas de frio e escuro; florestas de calor e brilho: esplendor que se conforta para lá das fronteiras da alma, da verdade e da mentira, do real e do absurdo; a loucura sem limites, a sapiência inevitável de uma ímpar sanidade.

O seu pincel em corrida desenfreada perpetrava o que era visível para além da visão, de quem ignorava os chamamentos do mundo, as vozes ocultas pela capacidade de ele se abster das circunstâncias físicas: não sentia a chuva fria que lhe caía sobre as costas, não havia frio, nem calor, contrariamente, às suas florestas intérminas. Ele ignora o tempo: intocável para todos os que o iam observando e julgando, atirando-lhe juízos de valor negativos tão ferozes nos pensamentos e nas vozes daqueles para quem o tempo é intocável. Aí começava a arte daquele pintor, na desnecessidade em ser imediatamente compreendida, de ser medida.

Uma criança com um misto de sentimentos segura um guarda-chuva. Estava, claramente, assustada e ainda assim firme, abrigando um desconhecido que ela era incapaz de entender e de julgar. Um acto genuíno de preocupação diferenciou aquela criança dos adultos, porque a incompreensão não implica desprezo, mesmo quando o desconhecido ou a diferença nos possam assustar.

Não fosse, verdadeiramente, o gesto afectuoso de uma criança, e, a chuva impossibilitaria realmente a elaboração daquele quadro. Foi naquele dia de chuva, que a luz mais brilhou, permitindo à imaginação emergir novamente na realidade. O retrato mostrava-nos que amanhã não sobreviveríamos, mas o hoje ainda pode render; a exemplo daqueles que conseguem desligar-se do tempo: um artista à chuva e uma criança assustada. Nenhuma mistura é mais genuína, para revelar aos que se atreverem a ver a essência desta cândida aliança, para que a imaginação ainda persista numa realidade cada vez mais surda para as canções das florestas do frio e do escuro; do calor e do brilho.

Onde Está Vladimir Kuzov?

O ser que não o é, tem o costume de se perder. Encontrá-lo é um dilema perdido e parcialmente ausente da realidade; sendo, simultaneamente, bastante real.

A existência de Vladimir Kuzov torna-se inevitável, não só para quem o procura: qualquer um corre o risco de o encontrar nas paredes onde desabafam poetas desconhecidos, por entre multidões desconectadas, em escadarias sem propósito, debaixo da luz obtusa de um candeeiro isolado e nas atitudes inconcebíveis de um aventureiro que monta vacas, corre atrás de ovelhas e até se perde nas escadas do metro.

Vlad. K. desconfia da existência de tesouros e não foi de propósito que um dia roubou uma bicicleta. É certo que ele cantou sobre anarquia no Reino Unido enquanto caminhava por ruas italianas. Ele não se assusta com os olhares de terceiros; podem julgá-lo à vontade que ele continuará a sentar-se em frente a uma frase escrita em qualquer parede e será como se lá não estivesse.

O Vladimir Kuzov é um artista, despercebido e misterioso, no qual ninguém repara e de quem todos se desviam. Provavelmente, alguns de vós já o encontraram; caso nunca o tenham procurado.

Sigam o link para lerem acerca da demanda por Vladimir Kuzov e para mais fotos dos locais por onde ele passou: Onde Está Vladimir Kuzov?

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