Tempo de Histórias

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Bom dia Joseph; está uma bela manhã. Bom dia Joseph; está uma bela manhã. Acorda, levanta-te. As vozes falam-te, escuta-as. Está uma bela manhã, mas estás deprimido. Querias dormir mais. Faz as necessidades, toma um duche. Não sabes o que vais comer ao pequeno-almoço. Que súbita vontade de falecer. Veste primeiro a camisa. Depois as calças. Aperta o cinto. Tens receio de cair na rua. Não temes pela saúde, temes pelas opiniões. Compõe a gravata. Pega na mala. Come uma maça pelo caminho. Não comuniques com esse vizinho no elevador. Ele é estranho: ouve demasiada música, lê demasiados livros. A tua garrafa está vazia. O propósito das garrafas é terem conteúdo. É como se tivesse morrido, a garrafa. Não vais voltar atrás. Eis que estamos no exterior. Está uma bela manhã, apesar da irrelevância. Olha discretamente para aquela rapariga. Não te apetece ir trabalhar. Ontem tiveste mais paciência para aguardar pelo autocarro. Amanhã terás menos. Para a semana ainda menos. Daqui a alguns anos, a espera vai-te enlouquecer. O autocarro chega sempre a horas. Tu é que chegas cedo. Caroço da maça no lixo. Senta-te. Não tens lugar. Vais de pé. Está uma bela manhã. Suspiras. É cansativo viver. Ir de pé no autocarro. Depois de teres esperado por ele. Amanhã, amanhã será igual. É cansativo viver, para quem não vive.


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Cumprimenta os conhecidos. Cumprimenta os desconhecidos. Pergunta-lhes se está tudo bem. Tu não queres saber deles. Nem eles de ti. Estás muito mal. Pelo menos não caíste na rua. Tiveste vergonha. A loira sorriu para ti. Foste cobarde. Não disseste nada. Tens de comprar ovos. Compõe a gravata. Ali está o narcisista. A manipuladora do chefe. O proselitista da congregação cristã. O bêbado. A dançarina. O bipolar. A que está sempre ocupada. A espiritualista. Sabes algo que os define. Que saberão eles de ti?. Não penses nisso. Não sabem nada de ti. Claro que sabem. Não fazes nada de especial. És um pilar em movimento. Não sustentas nada. És insignificante. Não sintas vontade de chorar. Vai trabalhar. Converte-te no servo que és. A tua vida é esta. Analisa mais um processo. Atende outra chamada. Apetece-te um café. Não tens tempo. Tens de acabar isto. Rápido. Produz, aumenta os lucros. É tudo o que importa. Mais do que a vida. Seja a vida o que for. A manipuladora do chefe aproxima-se. O chefe quer ver-te. Não fizeste nada de errado. Mantém a calma. Sê natural. Vais ser promovido. A recompensa. Vais ganhar mais dinheiro. Vais ter muito menos tempo. É o sonho. Não te podes esquecer dos ovos. Não caias na rua. Vai de táxi. Tens pouco tempo. Tens mais dinheiro. Foste promovido. É o sonho.


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Finalmente estás em casa. Esqueceste-te dos ovos. Não vais ao ginásio. O cansaço não te deixa. É sexta-feira. Foste promovido. Estás triste. Estás vazio. Estás ausente. Não chores. Não vale a pena. Perdeste-te. Vais ganhar mais dinheiro. Perdes-te a vontade de sorrir. Não gostas de ninguém. Tudo te odeia. Confundes a verdade. As certezas estão ausentes. Foste promovido. Mais trabalho. Que existirá para além disso. O teu coração está destroçado. A tua amada pertence a outro homem. Não estou a ser dura. Não me vou calar. Sou a voz da tua cabeça. O fato aperta-te. Nem penses em colocar uma corda ao pescoço. Deixa-te iluminar. Afasta o negrume. Tu não vês o momento. Tu não consegues ser feliz. Tu não vives os momentos. Tu não vives. Queres mais. O segredo é simples. Preferes não viver. Pensas demasiado. Inventas problemas. Vitimizas-te. Nunca soubeste o que querias. O mar das hipóteses arrastou-te. Agora estás perdido. Vais-te afogar. Estás inseguro. É a tua invenção. O momento acabou. Não o viste, não o vives-te. O mundo não te perdoa. A vida é imprevisível. Queres controlá-la. Ficas em pânico. Os pássaros negros assolam-te. O álcool não te ajuda. Foste promovido. Hoje esteve um belo dia. Sobreviveste. Estás cansado. O correio não veio hoje. A música acabou. O coração palpita. Os relógios não param. Os segundos são como agulhas. Não aguentas mais. Foste promovido. Vais-te demitir na próxima semana. Não haverá amanhã. Tens a corda ao pescoço. Estás sem ar. O mundo odeia-te. É assim que acaba. Deixa-te ir. Suspira. Hoje estava um belo dia. Morte…


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Uma suave brisa agitava os cabelos acinzentados, de uma senhora com mais de sessenta anos. O seu olhar, cansado: assemelhava-se às vestes largas e gastas, que cobriam o seu corpo, alto e magro.

Mantinha um percurso lento e despropositado, caminhando continuamente, pelo meio de uma estrada movimentada, como se esta estivesse deserta. O crepúsculo embelezava o momento, e demonstrava que naquela hora as pessoas ficam mais ansiosas e muito menos pacientes, restando-lhes uma vontade forte de somente chegar a casa e descansar.

Julgada por alguns olhares e palavras, a senhora manteve-se inabalável, caminhando lentamente, de olhar fixo no horizonte. Vários indivíduos juntaram-se-lhe, nesta sua marcha destemida e sem objectivo. Os carros paravam: condutores fora dos veículos; uma multidão seguia a mulher, que finalmente parava e se sentava a olhar para o céu.

Nenhum acontecimento extraordinário estava prestes a suceder nos céus. Era apenas a mais pura contemplação da simplicidade; que não requer romantismo, nem erudição. É um belo vislumbre: para os olhos atrevidos, e, para a mente que se solta e se prepara para toda a destreza, exigida somente pela detecção de belezas óbvias e ao mesmo tempo ignoradas; por uma desatenção perdida, numa atenção forçada e desnecessária.


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Ei-la ali, num percurso por um caminho rodeado por árvores: com umas folhas verdes, vivas e agitadas por uma pequena brisa. Os passos, dados naquele solo enlameado, não precediam nenhum destino ou objectivo concreto. Ela caminhava desalmada, morrendo um pouco mais a cada passo dado.

A longa marcha fê-la deparar-se com uma escadaria, de cor pálida, onde até a luz parecia incapaz de incidir. Era uma construção defeituosa, rodeada por plantas estranhas e que parecia estar suspensa em pleno ar, contrariando toda a lógica e gravidade. O topo guardava uma porta, com a inscrição da inexistência cravada na sua madeira gasta e húmida. 

Era um local oculto, onde ardia uma chama negra e fria: um purgatório, por onde divagavam os desalmados e os moribundos. A consolação era muito procurada, mas nunca encontrada. Assim que surge uma porta como aquela, até a inexistência, parece uma escapatória viável.

No seio da escada, o peso da incerteza fá-la parar. Senta-se, virando as costas para a entrada do vazio. É a primeira vez que olha para trás; tentando perceber de onde veio. As lágrimas dos seus olhos correm no sentido descendente, rumo ao passado que agora se revela.

Aquela porta é uma desistência: é a cedência ao fraquejo. Arrependida, – pelo local de onde escolheu vir – a decisão revelou-se-lhe simples: recomeçar o caminho, mas escolhendo passagens por locais diferentes.


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Ela riu-se daquilo que ele lhe ia dizendo: outrora as cobras falaram, em jardins mágicos pertencentes a uma outra dimensão além do mundo; local muito pouco acolhedor para quem busca o conhecimento. É luxuosa a dimensão de animais falantes, propícia ao riso, daqueles que não resistem ao fruto proibido – que agora é apenas desaconselhado – do conhecimento. Subitamente, naquela rua que ambos subiam e desciam vezes sem conta, ela tropeça e na queda bate com a cabeça numa pedra que sobressaía do restante passeio. Não terá sido, certamente, obra divina, resultado de um castigo pela troça ao mito.

A morte é tão imprevisível que ridiculariza a vida. Um pequeno passo, pode ditar a diferença entre estar ou não estar vivo, entre ser e simplesmente deixar de ser. Ela deixara de ser, e quem a amava, gritava frenética e compulsivamente, como se berros desmesurados fossem capazes de produzir o milagre de trazer os mortos de volta à vida. Os mortos são, inevitavelmente, surdos, sem nome, sem consciência, sem vida. São tudo aquilo que a imaginação é incapaz de lograr.

O desespero dele perante esta morte amotinou-o e colocou o seu pensamento a saltitar pelos extremos da sanidade; quiçá para além desta. Passados vários anos, a imagem daquela queda ainda lhe perturbava a memória. Desejava, solicitava e quase compelia a que alguém o empurrasse, com toda a força, para a espada que permanecia entre ele e a parede. O insucesso era a réstia deste desejo suicida, que rebaixava a vida a algo supérfluo, desnecessário e até dispensável. Decidiu então, abster-se de realizar os exames médicos que tinha marcados para o dia seguinte. Certo de ser alguém que desvalorizava a vida, questionou-se por que razão, alguém tão desinteressado em viver se pôde transformar num hipocondríaco.

Aquele cenário ilógico não ficou olvidado e solitário no seu interior, porque imediatamente ele se apressou a colocar uma grande faixa no centro da cidade, divulgadora do seu nome e da seguinte definição: “boneco e rei dos bonecos – no reino onde já não existem bonecos.”.


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A tal rapariga gosta de sair à noite, gosta de funk brasileiro e de misturar bebidas alcoólicas. São os gostos dela, livremente escolhidos e sem necessidade de levantar questões acerca disso, a não ser que ela tivesse em risco de obter uma cirrose e não soubesse. Nesse caso, talvez devesse imperar o bom senso, porque muitas vezes o bom senso não é estúpido e obriga a boas questões. Certa noite, ela não se estava a sentir bem: indisposta correu para o exterior do clube onde se encontrava a beber e a dançar, dobrou a esquina e vomitou. A indisposição derivou do consumo exagerado de bebidas alcoólicas e não da audição de uma música que falava sobre mexer o rabo e a utilidade dos pepinos.

No dia seguinte o Bobby, cão do dono que o passeava, começou a devorar o vomitado que a tal rapariga deixara na rua na noite anterior. Prontamente o dono do cão tentou impedi-lo de tal indigna refeição. Afinal talvez os gostos sejam mais discutíveis do que aparentam, sendo que até com os cães se pode discutir o gosto destes por uma regurgitação da noite anterior. Provavelmente, o que faz a diferença é a necessidade de argumentação. Ninguém tem de argumentar com um cão acerca do seu gosto pouco requintado, basta um grito aleatório para ele perceber que o dono não quer que ele faça algo.

É notório que somos inconstantes, criadores de falsas regras comportamentais que não fazem muito sentido. Há uma pertinência maior em discutir o gosto de alguém em descriminar imoralmente o que é diferente, do que certamente, em tentar convencer um animal doméstico que é melhor comer o milho das galinhas do que o vomitado resultante de uma embriaguez. É quase tão certo como o Bobby mesmo com fome não comer o milho, contrariamente, ao que faria a um naco de carne mesmo que não tivesse fome.


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